segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Fragilidades

“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.  
[…]
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, 259, a págs. 254/255


2 comentários:

Graça Pires disse...

O livro do Desassossego é sempre bom de ler, amiga.
Momento musical excelente.
Beijos.

Vieira Calado disse...

Bom dia!

E que Setembro seja mais ameno que esta Agosto!
Saudações poéticas!