Domingo, 5 de Julho de 2009

Encontro



Um barco desliza nas águas ao de leve sonoras.
Enquanto a noite desce como um lençol suavemente escuro
apagando o rio, que era azul
e agora já é um espelho prateado deitado sobre o mundo.
Alongado pela vastidão que se recolhe nos olhos de quem só olha.

Há em tudo uma paz impossível, e eu vejo o teu rosto e tu pareces não ser.
Olho-te de novo, e tu olhas-me assim:
tão perto e tão longe, no fundo de mim, que me deixas mais nu.
Eu sei:
és aquela que me ama do fundo das águas
que agora nos unem.
Eu sou aquele que procura
e te dá o silêncio inteiro das minhas duas mãos nas tuas.
Pois, no fim desta escuridão
somos sempre sozinhos.
A partir de agora, entre nós
não haverá mais segredos.

Poema e foto de
José Alberto Mar
- In, Colectânea "Os Dias do Amor". Pág. 304,
Editora Ministério dos Livros.2009

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Pina Bausch

As palavras de um Poeta numa homenagem que muito me sensibilizou…



Imagem de Paul Alfredde Curzo

A minha amiga a escritora Amélia Pinto Pais informou-me de manhã - morreu PINA BAUSCH - a grande coreógrafa dos nossos tempos! E comentou “ todos se vão...”

Garantido é que vamos todos!
Ao menos que o Destino nos conserve enquanto a vida tem qualidade física e psíquica e que nos requisite de seguida!

Sou fan de Pina desde que há muito dei por ela, e louvo a tecnologia que nos permite ver/ouvir/sentir os artistas e as obras em registos que repetimos pela vida fora, mesmo depois do desaparecimento físico!

Os meus versos de 1998, celebram isso!

espanto

espanto
é conhecer
que um dia
haverá um momento
único
na terra:
o último que se lembrava
de nós
morreu

momento a que chamamos
o nosso encontro
com o cosmos

Palavras e Poema de
carlos peres feio

Sábado, 20 de Junho de 2009

“Se de amor te falasse…”


Pintura de Alaya Gadeh


Acordei
de madrugada
sentindo
tua boca
na minha pele
ávida
de ternuras
e desejos.

Meu corpo
abre-se
como um lírio
banhado
p’los primeiros
raios da manhã.

Quentes
teus lábios
saciam a fome
no toque
envolvente
das línguas
que se cumprem
no sonho ansioso
da mente.

Com fervor
falei-te de Amor.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Horas...



A esta hora
os pássaros
despertaram
encetando
o voo matinal,
entre raios de sol
que se abrigam, nas
nuvens da Vida.

A esta hora
o mar ondulou
na areia fina
entre os pés
da solidão...

A esta hora
que não é a de todas
as perfeições,
as pedras
gritaram
as ausências
sentidas...


Poema na voz de
José-António Moreira in Sons da Escrita



(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)


Imagem de Fefa Koroleva


Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Vénus

Pormenor de "O nascimento de Vénus" de Sandro Botticelli



porque me fazes falta, nunca confessarei
sempre tive à perna a minha consciência
é hoje que me livro dela

fiquei a saber que o planeta Vénus
é horrível, sem atmosfera e repleto
de ácidos sulfurosos

e todos sabemos que desde a antiguidade
também chamamos Vénus
à deusa do amor.
isto faz sentido?

então porquê o espanto
ao saber que até há pouco
eras só um nome, e agora

venero-te como deusa do Amor
enveneno-me
como num planeta tóxico

para mim és Vénus
e moras noutra galáxia.


c peres feio
Carcavelos 2009-06-03

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Restauro do sistema - II

" ...decidia pela véspera
do nosso conhecimento
era infeliz
mas menos do que agora
"

Pintura de Claude Théberge



… e é primavera!
No meu coração florescem
raízes de memórias
mescladas de rosas e jasmins
no perpétuo movimento
da engrenagem do tempo;
um leve toque
um pequeno som
se distingue de
tantos sentimentos
que perduram no vento
da utopia.

Breve é o sonho
que nos aproxima
um sorriso
que dilata a artéria
desta imensa vida
onde nada se perde
tudo se transforma
até a existência perdida.

Miramar 2009.05.14

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Há palavras...

Há palavras que nos beijam, como dizia O’Neill no seu poema de promessas, que nos transportam para lá de todo o sentido.

Há palavras que doem mais que setas atiradas sem imaginarem que alvos possam atingir.

Há palavras que trazem um pó mágico de alegria que se dão sem perguntarem para que são nascidas.

E há palavras que não são palavras, porque nada dizem, nada trazem e delas nada fica.

Frias, calculistas, intrusas de significados que se balançam de um lado para o outro, mascaradas de verdades mas que delas nada se retira, a não ser a poalha da estrada que o vento leva por outro caminho.

Não sei lidar com estas palavras, como não sei lidar com a frieza delas, com o medo do seu alcance, com a destruição dos pensamentos que cada palavra alberga em si…


Pintura de Javier Azurdia


Nada sei dizer
da palavra
disputada
apodrecida
veloz
como espada espetada
no coração.

Palavras que o vento não leva.

Arrastam-se como estigma de frieza
mascaradas como verdades absolutas
nuas, dissimuladas
no perpétuo movimento
ousado, transcrito
onde permanecerão.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Onde...


Pintura de Carol Gartzman Gooberman



Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia

(António Ramos Rosa
in "O Sol é Todo o Espaço")

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Pássaro livre


Imagem de Mário Galante

Pelo vento eu sossego
as ideias,
no vento eu trago
os ideais e para o vento
eu levo as minhas palavras,
sou um pássaro livre
que voa intrépido
e se desilude
e se alegra na vida.

Sem vento também voo
com estas asas de paixão adiada
e também me iludo
e cubro a intemporalidade
num grito de liberdade!

(Poema de
Paula Raposo in As Minhas Romãs)

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Fidelidade


Imagem de Markeva Uhlirova


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,

(Poema de Jorge de Sena)



Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)