sábado, 22 de junho de 2019

Uma canção para ti.

Fechou o livro devagarinho. Não lhe apeteceu largá-lo. Deixou-o no colo em cima da macia manta que lhe cobria as pernas.



Uma lágrima quente rolava-lhe pelo rosto enquanto um sorriso aflorava os seus lábios como se recebesse um beijo.




Reclinou-se para trás sentindo a cabeça bater na cabeceira do maple. 


Mil pensamentos filmavam-se no seu interior. Sentiu o calor quente das imagens que a povoavam e o seu sangue ferver como chaleira em lume escaldando.



Amava o amor que lhe tinha dado tanto amor. Amava todo o seu passado como se ama algo que nunca se perderá. Porque será que nada de negativo a invade? Porque será que o amor é tão intenso dentro de si que a não liberta?!




Navega um rumo certo, sabe-o.




Navega de coração aberto em amor por tudo o que lhe foi dado. A calma da noite, como uma bênção, fá-la viajar no sonho e nas memórias.




Despe-se de preconceitos e sorri. 




Na sua frente, os retratos da felicidade. Olha-os. Pensa-os. 




Um sorriso explode-lhe no coração. Velozmente, corre-lhe nas veias. 

O seu olhar brilha como mil estrelas no firmamento.



(Por favor, desligar a música de fundo do blogue)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Sonhos e Memórias...



No eterno sonho dourado
dos teus olhos
longe de tudo
a madrugada passou
a água esculpe na montanha
rios límpidos e transparentes.

O crepúsculo partilha os teus momentos
e a espera da manhã
colhe as flores do amor
que existe no coração
em suave brisa
que acaricia o sol
e sente 
a ternura do 
vento.


Post scriptum: Este poema está inserido num texto que escrevi há anos. Ao ouvir esta música, recordei ambos.
Partilho. (por favor, desliguem a música de fundo do blogue para ouvirem o vídeo. Obrigada)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Autor desconhecido

Ode aos Natais Esquecidos


Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta

que dava acesso aos mistérios da noite,
daquela noite em particular, por ser a mais terna
de todas as noites que a minha memória
era capaz de guardar, com letras e sons,
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis.
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos,
a lembrança de outras noites e de outros dias,
os brinquedos cansados da solidão dos quartos,
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis.
E todos me diziam que era ainda muito cedo,
porque a meia-noite morava já dentro do sono,
no território dos anjos e dos outros seres alados,
hora inatingível a clamar pela nossa paciência,
meninos hirtos de olhos fixos na claridade
enganadora de uma árvore sem nome.

Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também.

Tudo se tornou gélido, esquivo e distante
como a tristeza de um fantasma confrontado
com a beleza da vida para sempre perdida.
Deixaram de me dar presentes e de dizer
que era o Menino Jesus que os trazia
para premiar a minha grandeza de alma,
o meu desejo de ser bom para os outros.
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente,
só para não ter de escrever sobre a saudade
que esse tempo fugidio deixou em mim.

A árvore mirrou de frio num canto da sala,

os presentes apodreceram no sótão da casa,
juntamente com os doces da Consoada
que ninguém teve vontade de comer,
nem mesmo os mais gulosos como eu.
Um homem de muita idade bateu-me à porta
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho:
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me.
Abri-o e vi um livro onde se contava
toda a minha vida desde o primeiro Natal
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo.
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore,
à espera que alguém me viesse dizer
que o céu era pródigo em revelações e dádivas.
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse.

Quando Dezembro se aproximar do fim,

lançarei pétalas ao vento como se tentasse
semear o perfume do que fui enquanto acreditei.
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto,
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever.
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses:
foi à sombra deles que nos fizemos homens.
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos
a ternura do meu sorriso de menino
quando a meia-noite soava no relógio da sala
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível.

José Jorge Letria, in  "Natal"

terça-feira, 15 de maio de 2018

Vento...



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade
in, Os Amantes sem dinheiro

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Porque de orgulho são tão nus meus versos




SONETO LXXVI

Porque de orgulho são tão nus meus versos,
tão limpos de contraste e mudanças?
Porque, com o tempo, não vão sendo imersos 
em novo estilo e estranhas esquivanças?

Porque escrevo eu sempre tão igual ao que era,
mantendo-me fiel ao que inventei,
que cada termo é como se dissera
quanto de mim procede que o gerei?

Que é só de ti, meu doce amor, que escrevo
contigo e Amor aos devaneios basto;
e o meu saber de poeta é este enlevo

de ainda outra vez gastar o que está gasto.
Tal como o Sol é novo cada dia,
assim do Amor eu digo o que dizia.

William Shakespeare 
In “Poemas de Amor”,
a págs 62
(Edição Alma Azul)



Imagem Google

quarta-feira, 4 de abril de 2018

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

Salvador Dali


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
‑ Perdida voz que de entre as mais se exila,
‑ Festões de som dissimulando a hora.


Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.


E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?


Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha, "Clepsidra"

sexta-feira, 23 de março de 2018

À Beleza



Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 

Miguel Torga, in “Odes" 

Fotografia de Elena Shumilova






sábado, 3 de março de 2018

Horizontes Infinitos



Vejo nos teus olhos
a tentação do mar
- horizontes infinitos
onde vogam tormentas –
erguem-se clarões
de sonho e de luar
em carícias subtis,
em harmonias lentas.

E não sei bem porquê,
sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores
nesta viagem de retorno
e de espera

sentindo, sem cessar,
o perfume das flores.



Pintura de Rosanne Pormeleau

quinta-feira, 31 de março de 2016

Divagações de um dia de Inverno




Estou cansada de Inverno.
Sonho com tempo ameno, roupas leves, mar tranquilo.
Sentar-me em relva verdejante.
Aborrecem-me
dias cinzentos; tardes frias.
Passeios no parque com pressa ou medo de chover.
Caminho nas palavras. Ou por entre elas.
Sonho-me. No azul da tarde.
Sempre.
Divago na sombra da partida.
Vou. Volto?
heart emoticon

"Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa."
Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in "Dia do Mar"


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Memórias...

O segredo da sua cútis brilhante e lisa é o seu sorriso”, dizia-me (como me lembro bem disso) a empregada da livraria onde abastecia o apetite voraz da leitura dos meus autores preferidos.

Sorria envergonhada enquanto me despedia e ia pensando que a vida não lhe devia ter sido muito sorridente já que o seu rosto era sulcado em demasia. 


Assim se passou o tempo.
Entre mim e ela estabeleceu-se um elo que o sorriso estabelecia.
Ela dizia-me piadas e, sempre envergonhada, não sabia responder-lhe. Sorria.
E continuava a vida de sempre: escrevia.
Escrevia.
Um dia perdi o sorriso.
Foi talvez entre os textos e os poemas.
Entre a descrição da vida e o sonho que permanecia.
As rugas no coração, que já não sorria, cobriam-me os olhos e a cútis já não fulgia. Enrugava.
Vivia a solidão dentro de mim e os meus olhos já não sorriam.
Só a boca, parada, sorria.
E a vida passava. E enrugava dentro de mim.
Só nos textos e nos poemas os meus olhos sorriam.
Era o sonho.
Era o sonho que comandava o que o meu coração escondia.
Mas não sorria.
Porque o sorriso vem da alma e o corpo bem o sabia.
Mas no sonho... 
no sonho...tudo conseguia. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Momentos

O azul mar espraia-se no infinito enquanto a música toca docemente.
O momento é de tranquilidade e apetece que não termine.
Ao longe a vela desfraldada de um barco seguindo a brisa traz memórias marítimas difíceis de esquecer.
O sol brilha em toda a costa e entra janelas adentro aquecendo paredes e o meu coração. 




Com os álamos

Pouco importa o nome:
para nascer
escolhi um rio.

A criança que fui
tem agora a idade
de uma pedra de água.

Enquanto dorme
parte com os pombos bravos.
Quando regressar
virá com os álamos.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sopro de vida

Elena Koupaliantz


Começar o poema
como quem atravessa  areia  escaldante
do deserto

Começar o poema
como quem espera chuva miudinha
no quente meio-dia de Maio

Começar o poema
como quem sente a liberdade dos pássaros
cruzando a imensidão do céu

Começar o poema
como barco sulcando as marés vivas
do oceano

Entre o começar e o finalizar
há um  imutável sopro de vida.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Do que gosto



Gosto de gente que veste sol.
Que lava a cara com gotas de chuva.
Que não mente hipocritamente
e cujo coração alberga uma mente despoluída.

Gosto de gente que ama a palavra
não como arma mas como flor de girassol
que enfrenta e roda o sol. Não com medo.
Mas com a força que a mente traduz no coração.

Gosto de gente que escreve a rir
mas que sílaba a sílaba goteja versos,
lentamente, de alma que não sabe mentir.

Gosto de gente sem preconceitos.
Que diz do que gosta mesmo que seja
o melhor dos outros e o pior de si.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

REGRESSO



Regresso  como se uma estranha dança
movesse o mais hesitante dos meus passos.
Regresso à simplicidade dos gestos,
à contemplação da vida junto dos abismos
onde se precipitaram os dias que, para nós,
sempre estiveram destinados.
Regresso, para resgatar os sonhos
que ainda respiram luz à tangente da noite.
Regresso, ao corpo faminto de sol,
ao lume das giestas,
para que este não morra na terra fria,
nem viva na gélida sombra
que me arrasta consigo ao esvair-se no tempo.

 de,  Albino Santos

Poema e imagem in Polyedro 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal



Natal

Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.  

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga in “Poesia Completa II”,a págs. 686

A TODOS DESEJO UM



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

a canção das ondas

Tatyana Markovtsev


Escuta
a canção das ondas
na constância do seu rumor

Envolve
o olhar no azul do firmamento

Sente 
o silêncio da lua

E  voa 
nas asas dos teus sonhos.

Anoiteceu.

sábado, 6 de setembro de 2014

Setembro

Pintura de Helen Cottle

Em Setembro,
florescem palavras
na areia molhada
de sensações

Em Setembro,
assoprado de mil gotas
germinadas em brancas nuvens
ouso ser maresia
para colher a essência
da harmonia

Setembro
és
Poesia!


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Fragilidades

“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.  
[…]
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, 259, a págs. 254/255


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Entre o céu e o mar

Acordei tarde com o sol entrando no quarto.

O meu fiel Sting, no terraço, feliz, numa dança cabriolante, tentava apanhar um insecto que se entretinha, irritante, a segui-lo.

Apetece-me o sabor do café e corro para a cozinha. Olho através da janela: quatro barcos navegam num manto azul da cor do céu e esperam, provavelmente, a entrada no porto mais próximo.

O sol brilha, alegrando o meu dia.
Pintura de Jacqueline Nibelle


Sol!
Tu que abres
as portas da alma
como rio sulcando
as duras rochas da serra,
seca os leitos
de terra encharcados
floresce no corpo gelado  
das gentes sem abrigo
e acalenta seus dias.

E na terra fermentada
germina raízes de alimento,
acalma as bravias ondas do mar
e segura nas finas redes o peixe
que o forno quente irá assar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Para todos...


No ano em que o lajedo da eira 
se encheu de granizo nós éramos crianças. 
Um arco de luz rodeava as nossas mãos disponíveis.  
Eram de neve os pássaros 
que nos esvoaçavam no olhar. 
Como se fossem anjos, como se fossem pétalas.  
E nós éramos crianças: o tempo em que a inocência 
nos torna indiferentes à magia dos lugares.

Graça Pires in Infância.
de Caderno de significados, 2013