quinta-feira, 31 de março de 2016

Divagações de um dia de Inverno




Estou cansada de Inverno.
Sonho com tempo ameno, roupas leves, mar tranquilo.
Sentar-me em relva verdejante.
Aborrecem-me
dias cinzentos; tardes frias.
Passeios no parque com pressa ou medo de chover.
Caminho nas palavras. Ou por entre elas.
Sonho-me. No azul da tarde.
Sempre.
Divago na sombra da partida.
Vou. Volto?
heart emoticon

"Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa."
Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in "Dia do Mar"


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Memórias...

O segredo da sua cútis brilhante e lisa é o seu sorriso”, dizia-me (como me lembro bem disso) a empregada da livraria onde abastecia o apetite voraz da leitura dos meus autores preferidos.

Sorria envergonhada enquanto me despedia e ia pensando que a vida não lhe devia ter sido muito sorridente já que o seu rosto era sulcado em demasia. 


Assim se passou o tempo.
Entre mim e ela estabeleceu-se um elo que o sorriso estabelecia.
Ela dizia-me piadas e, sempre envergonhada, não sabia responder-lhe. Sorria.
E continuava a vida de sempre: escrevia.
Escrevia.
Um dia perdi o sorriso.
Foi talvez entre os textos e os poemas.
Entre a descrição da vida e o sonho que permanecia.
As rugas no coração, que já não sorria, cobriam-me os olhos e a cútis já não fulgia. Enrugava.
Vivia a solidão dentro de mim e os meus olhos já não sorriam.
Só a boca, parada, sorria.
E a vida passava. E enrugava dentro de mim.
Só nos textos e nos poemas os meus olhos sorriam.
Era o sonho.
Era o sonho que comandava o que o meu coração escondia.
Mas não sorria.
Porque o sorriso vem da alma e o corpo bem o sabia.
Mas no sonho... 
no sonho...tudo conseguia. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Momentos

O azul mar espraia-se no infinito enquanto a música toca docemente.
O momento é de tranquilidade e apetece que não termine.
Ao longe a vela desfraldada de um barco seguindo a brisa traz memórias marítimas difíceis de esquecer.
O sol brilha em toda a costa e entra janelas adentro aquecendo paredes e o meu coração. 




Com os álamos

Pouco importa o nome:
para nascer
escolhi um rio.

A criança que fui
tem agora a idade
de uma pedra de água.

Enquanto dorme
parte com os pombos bravos.
Quando regressar
virá com os álamos.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sopro de vida

Elena Koupaliantz


Começar o poema
como quem atravessa  areia  escaldante
do deserto

Começar o poema
como quem espera chuva miudinha
no quente meio-dia de Maio

Começar o poema
como quem sente a liberdade dos pássaros
cruzando a imensidão do céu

Começar o poema
como barco sulcando as marés vivas
do oceano

Entre o começar e o finalizar
há um  imutável sopro de vida.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Do que gosto



Gosto de gente que veste sol.
Que lava a cara com gotas de chuva.
Que não mente hipocritamente
e cujo coração alberga uma mente despoluída.

Gosto de gente que ama a palavra
não como arma mas como flor de girassol
que enfrenta e roda o sol. Não com medo.
Mas com a força que a mente traduz no coração.

Gosto de gente que escreve a rir
mas que sílaba a sílaba goteja versos,
lentamente, de alma que não sabe mentir.

Gosto de gente sem preconceitos.
Que diz do que gosta mesmo que seja
o melhor dos outros e o pior de si.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

REGRESSO



Regresso  como se uma estranha dança
movesse o mais hesitante dos meus passos.
Regresso à simplicidade dos gestos,
à contemplação da vida junto dos abismos
onde se precipitaram os dias que, para nós,
sempre estiveram destinados.
Regresso, para resgatar os sonhos
que ainda respiram luz à tangente da noite.
Regresso, ao corpo faminto de sol,
ao lume das giestas,
para que este não morra na terra fria,
nem viva na gélida sombra
que me arrasta consigo ao esvair-se no tempo.

 de,  Albino Santos

Poema e imagem in Polyedro 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal



Natal

Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.  

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga in “Poesia Completa II”,a págs. 686

A TODOS DESEJO UM



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

a canção das ondas

Tatyana Markovtsev


Escuta
a canção das ondas
na constância do seu rumor

Envolve
o olhar no azul do firmamento

Sente 
o silêncio da lua

E  voa 
nas asas dos teus sonhos.

Anoiteceu.

sábado, 6 de setembro de 2014

Setembro

Pintura de Helen Cottle

Em Setembro,
florescem palavras
na areia molhada
de sensações

Em Setembro,
assoprado de mil gotas
germinadas em brancas nuvens
ouso ser maresia
para colher a essência
da harmonia

Setembro
és
Poesia!


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Fragilidades

“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.  
[…]
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, 259, a págs. 254/255


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Entre o céu e o mar

Acordei tarde com o sol entrando no quarto.

O meu fiel Sting, no terraço, feliz, numa dança cabriolante, tentava apanhar um insecto que se entretinha, irritante, a segui-lo.

Apetece-me o sabor do café e corro para a cozinha. Olho através da janela: quatro barcos navegam num manto azul da cor do céu e esperam, provavelmente, a entrada no porto mais próximo.

O sol brilha, alegrando o meu dia.
Pintura de Jacqueline Nibelle


Sol!
Tu que abres
as portas da alma
como rio sulcando
as duras rochas da serra,
seca os leitos
de terra encharcados
floresce no corpo gelado  
das gentes sem abrigo
e acalenta seus dias.

E na terra fermentada
germina raízes de alimento,
acalma as bravias ondas do mar
e segura nas finas redes o peixe
que o forno quente irá assar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Para todos...


No ano em que o lajedo da eira 
se encheu de granizo nós éramos crianças. 
Um arco de luz rodeava as nossas mãos disponíveis.  
Eram de neve os pássaros 
que nos esvoaçavam no olhar. 
Como se fossem anjos, como se fossem pétalas.  
E nós éramos crianças: o tempo em que a inocência 
nos torna indiferentes à magia dos lugares.

Graça Pires in Infância.
de Caderno de significados, 2013





sábado, 30 de novembro de 2013

Escrevo para expurgar o inexplicável

Pintura de Francine Van Hove


ESCREVO PARA EXPURGAR O INEXPLICÁVEL,
folgar o preenchimento, legitimar a causa,
esbater em palavras o efeito escravo
do silêncio, o voo enclausurado das asas
nas velas de cinza, no entalhe da folha
algemada a castiçais de preces



Escrevo na submissão do espaço, os sentidos
mudos do diálogo amotinado,
a estridência de clamor infinito, no movimento
ininterrupto, íntimo de espectros


Escrevo dentro dos contornos burilados,
o cansaço incabível do sono, o pavor da vigília
desprovida, desconcentrada, assaltada
de delitos


Escrevo-me e respondo-me, sucessivamente,
na demência encastelada de arrumação secreta,
encavalitada de arestas e de cumes,
no volume lascivo do fôlego


Escrevo-me e rescrevo-me, e resigno-me
ao silêncio revezado de gritos,
embezerrados


Escrevo-me e deito-me,
na amplitude pontuada, a cabeça
apenas, repousada nas virgulas,
a repisar as cismas nas pausas,
o clamor incandescente, tatuado,
na exaltação luminosa dos espelhos


E são as letras os meus sentidos
E são as palavras a minha música
O texto gradeado sobre branco
o meu avesso desgastado,
sulco e sombra


Assim, sou e impeço-me, desnecessariamente
verto-me, no decalque da tinta, neste dialecto
lácteo, insondado
que escrevo, leio, mas não domino,
ouso



Poema de Manuela Carneiro in
 Lector 



domingo, 18 de agosto de 2013

Sentires...




Sonho poesia no silêncio da música que toca o raiar do dia.
No jardim do mundo, o horizonte é céu onde descubro o arco-íris por entre as nuvens que dissipam gotas de chuva sob as pálpebras do universo.

Sentir o infinito a cruzar o corpo na brisa da madrugada que se não sente.
Renascer ao som dos pássaros voando na penumbra da manhã entoando "Dante's Prayer"…

Palavras perdidas no tempo sem palavras; isoladas no silêncio da música e nuvens de mar cor de espuma.
Pensamento em passeios de lua no murmurar de ondas bravias no sussurro do firmamento.

Entre a linha do horizonte e o sentir há um momento de solidão quebrado pela ilusão da magia do sentimento que brota como uma onda do coração.

Mergulho nas estrelas de eternas memórias, em noite profunda, onde os sonhos ainda são possíveis.


de, Otília Martel (Menina Marota)
in, Olhos de Vida, pág. 54
Ilustrações de Catarina Lourenço
Editor, Designer, Realizador e
Editor do vídeo constante do livro:
André Gaspar

P.S. Este texto foi escrito, madrugada dentro, ao som de "Dante’s Prayer" a música constante do vídeo abaixo e cantada por Loreene McKennitt.

(Desligar a música de fundo do blogue para ouvir o vídeo, p.f.)

domingo, 14 de julho de 2013

Somos a sombra de uma vara

Jaime Best


De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

  Uma vara de medir o sol, pág. 35
(2012)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

“a flor que havia na água parada”

Imagem da Net


XV

Estamos todos cansados de esperar
o que nunca virá,
de subir às ameias e espreitar,
de nos deitarmos no chão para escutar
a voz que ainda não esteve nem estará
junto de nós para nos consolar.

À volta só o silêncio e a solidão
respondem ao nosso olhar que não descansa
e ao nosso sequioso coração
a quem disseram que tivesse esperança.

Maria Judite de Carvalho
  “a flor que havia na água parada”, pág. 33 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A última noite de Maio.

Pintura de Rob Hefferan


Quantas últimas noites já por nós passaram?

Amanheceu. Do outro lado da cama, o lençol bem esticado revela a falta de um corpo que o ocupasse. O teu.

O frio da manhã, que se pressente quente, eleva-se do teu lado da cama, como fumo do cigarro que já acendeste, quando levo o café à cama onde dormes desde o dia em que de mim o teu olhar fugiu, numa última noite em que os nosso braços se tocaram numa despedida e noutros te albergastes, indiferente à minha dor.

Voltaste, é certo.

Acompanhado da doença que dorme contigo. E do cheiro da outra que ainda pressinto no teu corpo.

Voltaste uma noite. Seria a última de Maio?

O olhar frio e triste pedia também o que os teus lábios murmuraram… “Toma conta de mim… Não me abandones, por favor. Só a ti tenho…”

Já lá vai uma década.

Para mim, cada noite, é a última de Maio.
 



(31.Maio.2010  - Originalmente escrito no Blogue Cleopatra Moon em resposta a um desafio lançado para este tema)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Existência...


Não há palavras
nem nada para dar
não há sorrisos
nem carícias

Nem vontade para amar…

Há gotas que caiem
de mansinho
do meu olhar

Não há palavras
há imenso vazio
de nada partilhar.

sábado, 30 de março de 2013

Livre imaginação

Pintura de Nela Vicente


É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe
que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo
Se algum deus habita este vazio
é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca


Ergo como um insecto
as frágeis antenas para o espaço
Sinto a ébria lucidez
da minha liberdade
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente
porque reconheço
os anéis do silêncio o leque
de uma linguagem nova
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares
ou os seus lábios de noite
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra
e vejo as cintilantes arcas das constelações
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real


Ninguém me segreda os nomes que irei dizer
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana
Ninguém me impede que envolva num arco
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro
Ninguém me proíbe que me multiplique que me dilate
para ser cada vez mais a floração do espaço
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço



Poema de António Ramos Rosa in, Os Animais do Sol e da Sombra


sábado, 12 de janeiro de 2013

Não se perdeu nenhuma coisa em mim

Pintura de Sevim Yılmaz

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen