sexta-feira, 31 de maio de 2013

A última noite de Maio.

Pintura de Rob Hefferan


Quantas últimas noites já por nós passaram?

Amanheceu. Do outro lado da cama, o lençol bem esticado revela a falta de um corpo que o ocupasse. O teu.

O frio da manhã, que se pressente quente, eleva-se do teu lado da cama, como fumo do cigarro que já acendeste, quando levo o café à cama onde dormes desde o dia em que de mim o teu olhar fugiu, numa última noite em que os nosso braços se tocaram numa despedida e noutros te albergastes, indiferente à minha dor.

Voltaste, é certo.

Acompanhado da doença que dorme contigo. E do cheiro da outra que ainda pressinto no teu corpo.

Voltaste uma noite. Seria a última de Maio?

O olhar frio e triste pedia também o que os teus lábios murmuraram… “Toma conta de mim… Não me abandones, por favor. Só a ti tenho…”

Já lá vai uma década.

Para mim, cada noite, é a última de Maio.
 



(31.Maio.2010  - Originalmente escrito no Blogue Cleopatra Moon em resposta a um desafio lançado para este tema)

8 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Olá...
Ainda às voltas com "essa" noite? Porquê? O tempo não funcionou? Há mesmo nostalgia ou só emoção literária?
A canção que está no meu blog é velhinha, como sabes, dos Righteous Brothers.
Beijo
Daniel

heretico disse...

quantas noite perdidas...

beijo

gota de vidro disse...


Um texto fantástico...Uma miscelânea de amor e sentimentos de dor por traição. Algo que marcou profundo e não se quer apagar.....

Há tristeza e uma certa acomodação transformada em apoio.

Gostei

Obrigada pela visita e um bom domingo

Beijinho da Gota

Pitanga Doce disse...

A vida nos obriga a certas coisas. Ir, não ir, ficar com quem devíamos mandar ir... Mas olha, há vida lá fora.

beijos pitangueiros.

SOL da Esteva disse...

Querida

A dedicação, o Amor e a tolerância, suplantam as desilusões da última noite de um Maio que já não volta mais. Doeu, mas o Espírito está presente. O que mais contam são os actos.
Belo.


Beijos



SOL

Amita disse...

Gosto muito dos teus textos poéticos, como sabes, mas os profundos sentimentos que deste se depreendem são de uma intensidade imensa.
O percurso programado e ansiado nem sempre é o que se nos apresenta. Assim é a vida....
Um bjinho e uma flor

Anónimo disse...


Só uma Mulher com uma alma grande como a tua seria capaz de escrever esse texto, que sei sentido.

Bjo.

CF

Manuel Luis disse...

Arrepia só de pensar na última! Para mim, não existe a última!
Maio vem já a seguir a um abraço.