quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Memórias...

O segredo da sua cútis brilhante e lisa é o seu sorriso”, dizia-me (como me lembro bem disso) a empregada da livraria onde abastecia o apetite voraz da leitura dos meus autores preferidos.

Sorria envergonhada enquanto me despedia e ia pensando que a vida não lhe devia ter sido muito sorridente já que o seu rosto era sulcado em demasia. 


Assim se passou o tempo.
Entre mim e ela estabeleceu-se um elo que o sorriso estabelecia.
Ela dizia-me piadas e, sempre envergonhada, não sabia responder-lhe. Sorria.
E continuava a vida de sempre: escrevia.
Escrevia.
Um dia perdi o sorriso.
Foi talvez entre os textos e os poemas.
Entre a descrição da vida e o sonho que permanecia.
As rugas no coração, que já não sorria, cobriam-me os olhos e a cútis já não fulgia. Enrugava.
Vivia a solidão dentro de mim e os meus olhos já não sorriam.
Só a boca, parada, sorria.
E a vida passava. E enrugava dentro de mim.
Só nos textos e nos poemas os meus olhos sorriam.
Era o sonho.
Era o sonho que comandava o que o meu coração escondia.
Mas não sorria.
Porque o sorriso vem da alma e o corpo bem o sabia.
Mas no sonho... 
no sonho...tudo conseguia. 

4 comentários:

Graça Pires disse...

Boa memória afectiva...
Um beijo.

A.S. disse...

Ah!... É tão ténue a linha que separa o sonho da realidade
e todavia sentimos que está sempre tão distante!...

Beijo!
AL

Agostinho disse...


Na claridade do presente
há memórias que valem
o espaço dum sorriso
o sonho de rosa menina

Jaime Portela disse...

Sendo o sorriso contagiante, talvez que o da boca também influencie o da alma...
Magnífico poema. Como sempre, aliás.
Beijo.