quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Tudo o que ficou por dizer...


Pintura de Fabian Perez



Tudo o que ficou por dizer
porque de repente
era a hora do combóio
ou um telefone longínquo tocava
ou um qualquer acidente aconteceu.

Tudo o que ficou por dizer
porque o pudor calou a voz
porque um orgulho surdo a interrompeu
porque as palavras talvez já nem chegassem
ou era tarde
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.

Tudo o que ficou por dizer
porque a dor doía em demasia
e era necessário que as palavras
fossem capazes de ser claras como o ar
porque as palavras traem
como gumes de facas que nos cortam.

Tudo o que ficou por dizer
porque a tristeza apertou tanto a garganta
que nenhum som saía
nem o olhar continha
em desespero
uma lágrima ainda assim contida.

Tudo o que ficou por dizer
porque o tempo urgente
se esvaía
e de repente já não estava
no lugar a quem havia que o dizer
quem ainda há pouco nos ouvia.

Tudo o que ficou por dizer
e tudo
o que ficou por dizer
ou tudo
sempre
por dizer.

(Poema de Bernardo Pinto de Almeida)

4 comentários:

paper-life disse...

Não conhecia o poema e gostei muito.
Obrigada pela partilha. :)

Bom dia!

Teresa David disse...

É melhor não deixar nunca nada por dizer, assim, ficar-se-á apenas com a recordação do que foi bom!
Bjs
TD

LUA DE LOBOS disse...

passa no meu covil e lê uns posts que parecem a réplica deste poema lindissimo
xi
maria de são pedro

Anónimo disse...

nem tudo o que nos apetece podemos dizer... belissimo este poema e uma imagem fascinante!!
Um carinhoso beijo
Z.