segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Para todos...


No ano em que o lajedo da eira 
se encheu de granizo nós éramos crianças. 
Um arco de luz rodeava as nossas mãos disponíveis.  
Eram de neve os pássaros 
que nos esvoaçavam no olhar. 
Como se fossem anjos, como se fossem pétalas.  
E nós éramos crianças: o tempo em que a inocência 
nos torna indiferentes à magia dos lugares.

Graça Pires in Infância.
de Caderno de significados, 2013





sábado, 30 de novembro de 2013

Escrevo para expurgar o inexplicável

Pintura de Francine Van Hove


ESCREVO PARA EXPURGAR O INEXPLICÁVEL,
folgar o preenchimento, legitimar a causa,
esbater em palavras o efeito escravo
do silêncio, o voo enclausurado das asas
nas velas de cinza, no entalhe da folha
algemada a castiçais de preces



Escrevo na submissão do espaço, os sentidos
mudos do diálogo amotinado,
a estridência de clamor infinito, no movimento
ininterrupto, íntimo de espectros


Escrevo dentro dos contornos burilados,
o cansaço incabível do sono, o pavor da vigília
desprovida, desconcentrada, assaltada
de delitos


Escrevo-me e respondo-me, sucessivamente,
na demência encastelada de arrumação secreta,
encavalitada de arestas e de cumes,
no volume lascivo do fôlego


Escrevo-me e rescrevo-me, e resigno-me
ao silêncio revezado de gritos,
embezerrados


Escrevo-me e deito-me,
na amplitude pontuada, a cabeça
apenas, repousada nas virgulas,
a repisar as cismas nas pausas,
o clamor incandescente, tatuado,
na exaltação luminosa dos espelhos


E são as letras os meus sentidos
E são as palavras a minha música
O texto gradeado sobre branco
o meu avesso desgastado,
sulco e sombra


Assim, sou e impeço-me, desnecessariamente
verto-me, no decalque da tinta, neste dialecto
lácteo, insondado
que escrevo, leio, mas não domino,
ouso



Poema de Manuela Carneiro in
 Lector 



domingo, 18 de agosto de 2013

Sentires...




Sonho poesia no silêncio da música que toca o raiar do dia.
No jardim do mundo, o horizonte é céu onde descubro o arco-íris por entre as nuvens que dissipam gotas de chuva sob as pálpebras do universo.

Sentir o infinito a cruzar o corpo na brisa da madrugada que se não sente.
Renascer ao som dos pássaros voando na penumbra da manhã entoando "Dante's Prayer"…

Palavras perdidas no tempo sem palavras; isoladas no silêncio da música e nuvens de mar cor de espuma.
Pensamento em passeios de lua no murmurar de ondas bravias no sussurro do firmamento.

Entre a linha do horizonte e o sentir há um momento de solidão quebrado pela ilusão da magia do sentimento que brota como uma onda do coração.

Mergulho nas estrelas de eternas memórias, em noite profunda, onde os sonhos ainda são possíveis.


de, Otília Martel (Menina Marota)
in, Olhos de Vida, pág. 159
Ilustrações de Catarina Lourenço
Editor, Designer, Realizador e
Editor do vídeo constante do livro:
André Gaspar

P.S. Este texto foi escrito, madrugada dentro, ao som de "Dante’s Prayer" a música constante do vídeo abaixo e cantada por Loreene McKennitt.

(Desligar a música de fundo do blogue para ouvir o vídeo, p.f.)

domingo, 14 de julho de 2013

Somos a sombra de uma vara

Jaime Best


De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

  Uma vara de medir o sol, pág. 35
(2012)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

“a flor que havia na água parada”

Imagem da Net


XV

Estamos todos cansados de esperar
o que nunca virá,
de subir às ameias e espreitar,
de nos deitarmos no chão para escutar
a voz que ainda não esteve nem estará
junto de nós para nos consolar.

À volta só o silêncio e a solidão
respondem ao nosso olhar que não descansa
e ao nosso sequioso coração
a quem disseram que tivesse esperança.

Maria Judite de Carvalho
  “a flor que havia na água parada”, pág. 33 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A última noite de Maio.

Pintura de Rob Hefferan


Quantas últimas noites já por nós passaram?

Amanheceu. Do outro lado da cama, o lençol bem esticado revela a falta de um corpo que o ocupasse. O teu.

O frio da manhã, que se pressente quente, eleva-se do teu lado da cama, como fumo do cigarro que já acendeste, quando levo o café à cama onde dormes desde o dia em que de mim o teu olhar fugiu, numa última noite em que os nosso braços se tocaram numa despedida e noutros te albergastes, indiferente à minha dor.

Voltaste, é certo.

Acompanhado da doença que dorme contigo. E do cheiro da outra que ainda pressinto no teu corpo.

Voltaste uma noite. Seria a última de Maio?

O olhar frio e triste pedia também o que os teus lábios murmuraram… “Toma conta de mim… Não me abandones, por favor. Só a ti tenho…”

Já lá vai uma década.

Para mim, cada noite, é a última de Maio.
 



(31.Maio.2010  - Originalmente escrito no Blogue Cleopatra Moon em resposta a um desafio lançado para este tema)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Existência...


Não há palavras
nem nada para dar
não há sorrisos
nem carícias

Nem vontade para amar…

Há gotas que caiem
de mansinho
do meu olhar

Não há palavras
há imenso vazio
de nada partilhar.

sábado, 30 de março de 2013

Livre imaginação

Pintura de Nela Vicente


É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe
que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo
Se algum deus habita este vazio
é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca


Ergo como um insecto
as frágeis antenas para o espaço
Sinto a ébria lucidez
da minha liberdade
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente
porque reconheço
os anéis do silêncio o leque
de uma linguagem nova
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares
ou os seus lábios de noite
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra
e vejo as cintilantes arcas das constelações
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real


Ninguém me segreda os nomes que irei dizer
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana
Ninguém me impede que envolva num arco
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro
Ninguém me proíbe que me multiplique que me dilate
para ser cada vez mais a floração do espaço
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço



Poema de António Ramos Rosa in, Os Animais do Sol e da Sombra


sábado, 12 de janeiro de 2013

Não se perdeu nenhuma coisa em mim

Pintura de Sevim Yılmaz

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Poema de Natal


Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.


Poema de Pedro Tamen

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Liberdade...




Quando era menina dizia que a liberdade era o pássaro que tinha no coração a querer voar... 


 
Fotografia de Andre Kohn

sábado, 3 de novembro de 2012

Canção de Amor

Pintura de Duy Huynh



Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na   escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

Poema de R. M. Rilke

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"o silêncio e as palavras"

Pintura de Brenda Burke


Percorro, passo a passo,
os sulcos dos migradores
de sonhos.
Reaprendo o ritual
dos presságios
para atravessar a noite,
deslumbrada e breve.
Posso, assim, iludir os gestos
mais suspeitos e escutar
o silêncio e as palavras
mutuamente se inquirindo.

Poema de
Graça Pires
in “Uma extensa mancha de sonhos”, pág.48

terça-feira, 10 de julho de 2012

Foz do Teu Olhar


Perdi-me no silêncio que se estendia
Na serra que cobre o Douro,
Quando a tarde fez-se no Sol que se abria
E matizava o chão de ouro.

Perdias-te na saudade que se avizinhava
Ou na aventura que vivias
E, a cada palavra da canção que ocultava,
Simplesmente, sorrias...

E, no ledo passeio,
O beijo foi o ensejo que o tempo escondia...
E, no Molhe deserto,
Abracei-te quando o âmago dizia:

"Escondo o Porto na voz,
Quando abraço o mar...
Eis o Mundo que desemboca na Foz do teu olhar".

Texto de João Garcia Barreto

Onde desvendei o meu Horizonte...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um amor feliz...

Pintura de Sergey Marshennikov


Dos meus lábios
ao teu beijo,
vai um sorrir,

Do teu corpo
ao meu desejo,
uma carícia,

Da minha paixão
ao teu furor,
vai um olhar,

Um roçar que seja,
embebido de malícia,
chega para nos transbordar,

Chega para nos verter
na profunda delícia,
de sentir.

Do primeiro momento
à hora de te deixar,
vai um instante,

Fica-nos o passo
a ensaiar partidas,
curto e relutante, na despedida,

Do meu querer ao teu gostar,
vai um carinho, grande e sereno,
…sempre a partir,

Viaja entre nós,
calma, …a certeza,

de um amor feliz.


(Bósnia 1996)


Poema de
Teresa Cunha


Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
Gentileza do Estúdio Raposa
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Carta de Um Contratado


(desligar, p.f., a música de fundo do blogue, para ouvir o vídeo. Obrigada)



sábado, 28 de janeiro de 2012

Silêncio e tanta gente


(desligar, p.f., a música de fundo do blogue, para ouvir o vídeo.Obrigada)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Amar



Só ama quem se entrega, quem se dá,
nada pedindo em troca,
quem, por onde quer que vá,
acima do mais coloca
o desejo de amar e ser amado
sem cuidar de inocência nem pecado.

Poema de
Torquato da Luz
in "Por Amor e outros poemas"



Imagem de Eylülün Hüzün

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sufocada




Sufocada de poema a voz!
No oceano relâmpago atroz!
Ah! Se a alma cantasse,
Se nossos sonhos elevasse...
De nada a vida quereis.
Ah! Grito mudo que não entendeis.
E, silenciosa, a realidade observa.
E, silencioso, o sonho preserva...
E nasce...
Nasce...
Renasce!

Imagem e Poema de
Ana Tapadas



Pintura de Mireya Juárez Noriega

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal

Fotografia pessoal


Não ouço, daqui, o repicar dos sinos,
nem os coros de natal, nem, sequer,
o alvoroço, que o meu riso de criança
transportava. Eu sei : a infância
perdeu-se no lugar onde nasci.
Contudo, a um canto da memória,
está, ainda, resistindo ao sono,
a menina que fui. E, ano após ano,
aguardo, com ela, um menino jesus,
para sempre adormecido no meu peito.



Poema de
Graça Pires
in, "Quando as estevas entraram no poema, 2005"