quarta-feira, 1 de maio de 2013

Existência...


Não há palavras
nem nada para dar
não há sorrisos
nem carícias

Nem vontade para amar…

Há gotas que caiem
de mansinho
do meu olhar

Não há palavras
há imenso vazio
de nada partilhar.

sábado, 30 de março de 2013

Livre imaginação

Pintura de Nela Vicente


É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe
que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo
Se algum deus habita este vazio
é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca


Ergo como um insecto
as frágeis antenas para o espaço
Sinto a ébria lucidez
da minha liberdade
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente
porque reconheço
os anéis do silêncio o leque
de uma linguagem nova
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares
ou os seus lábios de noite
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra
e vejo as cintilantes arcas das constelações
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real


Ninguém me segreda os nomes que irei dizer
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana
Ninguém me impede que envolva num arco
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro
Ninguém me proíbe que me multiplique que me dilate
para ser cada vez mais a floração do espaço
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço



Poema de António Ramos Rosa in, Os Animais do Sol e da Sombra


sábado, 12 de janeiro de 2013

Não se perdeu nenhuma coisa em mim

Pintura de Sevim Yılmaz

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Poema de Natal


Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.


Poema de Pedro Tamen

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Liberdade...




Quando era menina dizia que a liberdade era o pássaro que tinha no coração a querer voar... 


 
Fotografia de Andre Kohn

sábado, 3 de novembro de 2012

Canção de Amor

Pintura de Duy Huynh



Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na   escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

Poema de R. M. Rilke

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"o silêncio e as palavras"

Pintura de Brenda Burke


Percorro, passo a passo,
os sulcos dos migradores
de sonhos.
Reaprendo o ritual
dos presságios
para atravessar a noite,
deslumbrada e breve.
Posso, assim, iludir os gestos
mais suspeitos e escutar
o silêncio e as palavras
mutuamente se inquirindo.

Poema de
Graça Pires
in “Uma extensa mancha de sonhos”, pág.48

terça-feira, 10 de julho de 2012

Foz do Teu Olhar


Perdi-me no silêncio que se estendia
Na serra que cobre o Douro,
Quando a tarde fez-se no Sol que se abria
E matizava o chão de ouro.

Perdias-te na saudade que se avizinhava
Ou na aventura que vivias
E, a cada palavra da canção que ocultava,
Simplesmente, sorrias...

E, no ledo passeio,
O beijo foi o ensejo que o tempo escondia...
E, no Molhe deserto,
Abracei-te quando o âmago dizia:

"Escondo o Porto na voz,
Quando abraço o mar...
Eis o Mundo que desemboca na Foz do teu olhar".

Texto de João Garcia Barreto

Onde desvendei o meu Horizonte...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um amor feliz...

Pintura de Sergey Marshennikov


Dos meus lábios
ao teu beijo,
vai um sorrir,

Do teu corpo
ao meu desejo,
uma carícia,

Da minha paixão
ao teu furor,
vai um olhar,

Um roçar que seja,
embebido de malícia,
chega para nos transbordar,

Chega para nos verter
na profunda delícia,
de sentir.

Do primeiro momento
à hora de te deixar,
vai um instante,

Fica-nos o passo
a ensaiar partidas,
curto e relutante, na despedida,

Do meu querer ao teu gostar,
vai um carinho, grande e sereno,
…sempre a partir,

Viaja entre nós,
calma, …a certeza,

de um amor feliz.


(Bósnia 1996)


Poema de
Teresa Cunha


Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
Gentileza do Estúdio Raposa
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Carta de Um Contratado


(desligar, p.f., a música de fundo do blogue, para ouvir o vídeo. Obrigada)



sábado, 28 de janeiro de 2012

Silêncio e tanta gente


(desligar, p.f., a música de fundo do blogue, para ouvir o vídeo.Obrigada)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Amar



Só ama quem se entrega, quem se dá,
nada pedindo em troca,
quem, por onde quer que vá,
acima do mais coloca
o desejo de amar e ser amado
sem cuidar de inocência nem pecado.

Poema de
Torquato da Luz
in "Por Amor e outros poemas"



Imagem de Eylülün Hüzün

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sufocada




Sufocada de poema a voz!
No oceano relâmpago atroz!
Ah! Se a alma cantasse,
Se nossos sonhos elevasse...
De nada a vida quereis.
Ah! Grito mudo que não entendeis.
E, silenciosa, a realidade observa.
E, silencioso, o sonho preserva...
E nasce...
Nasce...
Renasce!

Imagem e Poema de
Ana Tapadas



Pintura de Mireya Juárez Noriega

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal

Fotografia pessoal


Não ouço, daqui, o repicar dos sinos,
nem os coros de natal, nem, sequer,
o alvoroço, que o meu riso de criança
transportava. Eu sei : a infância
perdeu-se no lugar onde nasci.
Contudo, a um canto da memória,
está, ainda, resistindo ao sono,
a menina que fui. E, ano após ano,
aguardo, com ela, um menino jesus,
para sempre adormecido no meu peito.



Poema de
Graça Pires
in, "Quando as estevas entraram no poema, 2005"

domingo, 18 de dezembro de 2011

Olhos de Vida...




Vagueio num campo de flores azuis
enquanto aguardo o sono chegar
olhando a estrela que quero admirar.


Esta noite
voltei a ser a rapariga
que foge dos sonhos,
olhando os olhos da Vida,
mas que apesar de tudo
por ela quer ser seduzida
e deixar-se embalar.


Meu corpo de fogo
embala-se nas palavras de gelo
que lhe são sussurradas
e espanta-se
mais uma vez
por sucumbir a um dever
a que não estava destinada.


Boa noite.


Em dia de aniversário de casamento... num 18 de Dezembro algures no tempo...
Pintura de Guido Borelli 

domingo, 13 de novembro de 2011

Outono...



Há uma folha no vento
cor dos olhos da terra
ondula na aragem do tempo
onde a música é chuva
que limpa o pensamento.

Contempla a memória
na distância perdida e,
no pôr do sol da esperança,
o coração sente o apelo
do [a] mar
entre a fragrância das flores
que a brisa quer abraçar.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quando chegaste




Como se nada pudesse alterar o percurso de uma paixão
enfeito os ombros de mimosas e mudo de perfume
para inquietar quem roce os meus cabelos.

Chegaste: trazias nos olhos toda a claridade
das manhãs da tua infância
e um sorriso de menino triste no contorno da boca.
Chegaste: o meu olhar propício ao teu olhar.
A marca da sede nos meus lábios.
Um frio perturbado, coagulando-me o sangue e o sexo.
Chegaste: lembras-te como, em nossas mãos
se insinuou um rio e, sem tréguas,
os dedos deslizaram lentamente adivinhando
o começo da nascente em nossos corpos ?

Poema de
Graça Pires

Imagem Google

quarta-feira, 27 de abril de 2011

adágio

Imagem de Rodney Smith


ao toque de um adágio único
cresce a ânsia de atingir
sei lá o quê

enlouqueço na linha do horizonte
bebo-te nos sais das tuas lágrimas

tomo-te em minhas mãos
no liquido húmus em que és minha

por fim entrego-me
nesse acolhimento
esgotado sem outro destino
aceitando o sacrifício
em teu nome!


(Poema de c peres feio
2009.06.11 carcavelos)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Rescaldo de um Ano...

Confesso…

2010 foi um ano difícil para mim, só superado, em muitos aspectos, pela força de vontade e de viver.

Foi um ano de ganhar coragem e superar obstáculos e dúvidas; superar a perda irreparável de Amigos que deixaram esta vida, mas que vivem no meu coração para sempre.

Foi um ano de levantar ombros e empurrar caminhos para a frente, superando tristezas, ganhando alegria.

Mas foi, igualmente, um ano de ganhos de afectos, de amizades, de sorrisos, no apoio constante encontrado naqueles que, dia a dia comigo partilham a solidão de muitos momentos.

Foi um ano de voltar a encontrar-me, na certeza de que, a magia da vida, acontece a cada momento e se 2010 foi um ano de perdas, foi também de ganhos ao reencontrar Amigos perdidos, tristezas superadas, lágrimas secas e sorrisos de novo brilhando na minha alma e no meu sentir.

Adeus 2010.




Espero-te, 2011.