Às vezes a dor é tão grande que sai do meu peito e flutua no ar até eu adormecer.
Às vezes o espanto da existência permanece em mim como que alertando-me que há mais vida para além daquilo que já vivi.
Às vezes recordo o tempo em que me doíam o silêncio, a ausência, a palavra-pedra, a grosseria com que a minha alma era ferida, até que um dia, deixou de doer.
Às vezes, mas só às vezes, recordo aquele dia em que, sem saberes, fui ao teu encontro e, na larga Avenida que me levaria a ti, passaste com outra ao lado e o sorriso dos teus olhos não foi a mim que envolveu.
Às vezes, recordo o muro de arame farpado que em mim se cravou, e a dor desse momento, para lembrar-me que não vou voltar a sofrer.
Às vezes, mas só às vezes, penso na beleza do sentimento que se perdeu…



















