quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Paixão

Richard Gere e Jennifer Lopez

Toque leve
do seu corpo
que entrelaça,
bolero
ou tango
que perpassa

Porque eles são
fogo
que incendeia
ilusão
que desnorteia
música que rodopia.


Atentos, o olhar no
olhar,
murmúrios alados
- maestro da harmonia
num bailado sensual
que extasia.

Há dentro dos corpos uma chama
de sangue vermelho que clama

Paixão

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Apenas um momento

Fotografia pessoal

Quando a véspera
do mais prolongado sossego
me fere a solidão da infância
quero um momento,
apenas um momento,
para que o excesso de luz a prumo
amotine as palavras nos meus lábios
e as confunda com a quietude
urgente da paisagem.
De pulsos iluminados
poiso a voz no fundo da tristeza,
para expor a voz de outrora: no dia mais bonito
que vier irei, sem rumo algum, ao deus-dará,
procurar um lugar para morrer,
as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.


Poema de
Graça Pires
in "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos",
pág. 38

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Incipit

Pintura de Michael and Inessa Garmash

Conheces o intervalo do silêncio,
a subtileza de uma música.
A palavra amor ou a palavra livro.

Escrevo,
No rumor da manhã um nome mágico,
como uma rosa perdida no frio ou da neblina.
O teu, talvez recuperado à pressa
das águas.

Escrevo,
Um cântico cibernético,
cintilante na cicatriz dos ventos. A árvore
de silêncios e presságios.

Por que
reconheces uma flor no desenho velocíssimo de uma asa.
O mar da tranquilidade nos nossos ventos.

Conheces: os livros por dentro, a demora
da sua gestação. Os livros que removem ou crescem,
na lava e nos fermentos.

Quando cresce a palavra fluente encantada nas árvores,
quando crescemos nós nos livros. Esse pão ou fruto
de tinta permanente a cavalo do tempo seguinte.


(Poema de José Laurindo Leal de Góis*)


* Poeta e jornalista português, José Laurindo Leal de Góis, nasceu no Funchal, em 1954.
Iniciou-se no jornalismo radiofónico nos anos 73-75. Revelou-se como poeta no "Suplemento 2000" e na página "Letras & Artes" do Jornal da Madeira, fundado e dirigido por José António Gonçalves, vindo, por este, a ser inserido nos quatro volumes antológicos de poetas madeirenses: Ilha (1975), Ilha 2 (1979), Ilha 3 (1991) e Ilha 4 (1994). Colabora com textos ensaísticos na "Margem" e na "Islenha", depois de ter participado na extinta "Atlântico".
Em 2003, estreou-se em edição individual com o livro de poesia O Fogo e a Lágrima (Campo das Letras, 2003).
Está representado na antologia Poeti Contemporani dell'Isola di Madera, organizada e traduzida para italiano por Giampaolo Tonini (Centro Internazionale della Grafica de Venezia, 2001). (enviado por email)

domingo, 17 de agosto de 2008

De mim para ti

Pintura de Joop Frohwein

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insónia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia...

Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.


Cecilia Meireles in Amor Perfeito



segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Concepção

escultura de Auguste Rodin

O poema nasceu e eu nem estava lá
a enaltecer a sua criação.
Foi o poema que me fez crescer,
porque concebe-se
nasce sozinho, tem vida própria,
sentimentos e sentidos tão apurados
que nem sabemos como ele eclodiu
entre os olhos prodigiosos das palavras.

O poema voa para lá dos sentidos, da própria carne.
É o cerne do pensamento irrompendo além do
mundo a que me dou, que me possui e me liberta.

O poema é o próprio poeta.
Tem a visão da humanidade
sente a liquidez das palavras consensuais, do riso, da dor,
de utopia em utopia ele cresce, amadurece,
dá-se na vertente do conceito filosófico da razão
e floresce na terra germinada de amor
O poema desabrochou e sobreviveu.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Palavras ridículas…



O Poeta escrevia:
“todas as cartas de amor são ridículas”…


E o riso morre no coração
que não derrama amor
dimensão infinita do sonho
contendo toda a grandeza
de um céu invadido de estrelas
no espelho que os deuses esculpiram
na face da lua onde as noites são límpidas
e transparentes como o sonho dos amantes

Eis a palavra que perdeu a memória
e da viagem por todo o universo, ela sente
o afiar dos espinhos que os dedos cobiçam
porque é no sangue derramado
que a palavra se solta
escrevendo o poema num grito do coração…




Pintura de Victor Ribeiro

quinta-feira, 1 de maio de 2008

terça-feira, 8 de abril de 2008

Nuvens...

Pintura de Sandra Bierman

Eram verdes de esperança
as nuvens do meu olhar
azul minha ilusão
e rosa o meu sonhar.

Como uma nuvem por mim
passaste e no silêncio da noite,
vislumbrei-te na escuridão
que largaste nas tuas palavras;
as lágrimas que deixaste no meu rosto
perscrutam o horizonte longínquo,
que outrora nos aproximou…

Adensam-se espessas nuvens
que num tornado dentro da minha alma,
gota a gota, deslizam no oceano da desilusão.

De que cor são as nuvens no teu olhar?
De que cor, as palavras que te saem do coração?

Por entre nuvens de dor e silêncio
se veste o meu olhar
nesta forma pueril de sentir e amar.

terça-feira, 25 de março de 2008

...

Após inúmeros pedidos de pessoas que de alguma forma estabeleceram um vínculo com o meu blogue, que por minha própria iniciativa tinha decidido eliminar, já que é minha intenção manter-me afastada da blogosfera, decidi por respeito a todas essas pessoas e, ainda mais, aos autores dos trabalhos que aqui vinha promovendo, activar o blogue mantendo-o para memória futura.
Aqui fica pois, o meu respeito e amizade por todos vós e o agradecimento, pelos inolvidáveis momentos que partilhámos.

Agradeço ainda, a prestimosa ajuda da
Piedade Araújo Sol, do Jeremias e do AC (que não quer ser identificado) na activação deste blogue, sem a qual, isso nunca seria possível.

Obriga
da a todos
Imagem Google

domingo, 9 de março de 2008

A Perenidade das Coisas

É sempre com uma imensa alegria no coração, que leio as mensagens que deixam nesta minha modesta página.
Hoje essa alegria foi maior, ao ler um pequeno poema, que foi deixado num comentário e que me encantou, pela sua enorme poética.
Aqui o partilho
Pintura de Gabriel Picart

Cantou uma só vez o rouxinol
Ao alvorecer
E tudo se suspendeu
Sem um querer.
Foi nesse curto espaço
Que vi ruir
O vigor, a sorte, o encanto.
Ó perene existir!



(Poema de Mário Matta e Silva)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Planeta Azul



Não sei 
se os meus olhos
soltam as tuas palavras.
Caminho no meio delas
acarinho-as docemente
danço ao som da valsa
que elas me fazem ouvir.

Quero ser
menina eterna
de azul vestida,
como o mar,
de asas de condor
e aprender a voar.

Leio-te
mas será que te entendo?

Será que vês o interior
da minha alma
que reflecte o meu coração
que te lê, mas não te vê?

Palavras
que fazem sonhar
ou que magoam
como pregos
espetados na
minha forma de amar.

Eis-me,
sensível,
tremente,
solitária
no meio
de tanta gente.

Eis-me,
de olhos abertos,
vendo,
lendo,
querendo.

Eis-me 
num Mundo 
que não criei
mas onde possuo
aquilo que mais amei.
Eis-me...
no teu planeta azul.


in, "Menina Marota Um Desnudar de Alma", 
pá,s  18/19, Papiro Editora


(memórias minhas...)

Imagem: Rita Isabel

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Alvores

Foz do Douro - Imagem de Carlos Silva


...e sempre o mar por perto; a estrela d'alva
terá como destino acolhedor
fazer desse mar um mar de amor
aos primeiros alvores da madrugada...
e que força tem e que esplendor
emerge, do dia que aparece
ao toque do sol, que entontece
as abelhas, pelas giestas desta vida!
Rompe então suave, quase dormida
da palidez marmórea do nascente
o encanto da cor aurea e quente
dum raio de luz; sol que beija
o mar ondulante e a carqueja
da costa mais agreste e alcantilada...
depois esvai-se em cor a madrugada
enquanto todo amor o mar arqueja!...

(Poema de
Maria Mamede in De Amor e de Terra)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Tudo o que ficou por dizer...

Pintura de Fabian Perez


Tudo o que ficou por dizer
porque de repente
era a hora do combóio
ou um telefone longínquo tocava
ou um qualquer acidente aconteceu.

Tudo o que ficou por dizer
porque o pudor calou a voz
porque um orgulho surdo a interrompeu
porque as palavras talvez já nem chegassem
ou era tarde
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.

Tudo o que ficou por dizer
porque a dor doía em demasia
e era necessário que as palavras
fossem capazes de ser claras como o ar
porque as palavras traem
como gumes de facas que nos cortam.

Tudo o que ficou por dizer
porque a tristeza apertou tanto a garganta
que nenhum som saía
nem o olhar continha
em desespero
uma lágrima ainda assim contida.

Tudo o que ficou por dizer
porque o tempo urgente
se esvaía
e de repente já não estava
no lugar a quem havia que o dizer
quem ainda há pouco nos ouvia.

Tudo o que ficou por dizer
e tudo
o que ficou por dizer
ou tudo
sempre
por dizer.


(Poema de Bernardo Pinto de Almeida)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Intervalo...


Imagem de Mariana Ximenes


O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

(António Gedeão in Máquina do Mundo)

domingo, 13 de janeiro de 2008

noite

Pintura de Andreas Dieberger

Noite que te interpões de permeio
entre a queda do poente
e o despontar da alvorada
Noite em que me perco e me enleio
numa teia entorpecente
tecida pela madrugada

Noite de náufragos à deriva
de tempestade escondida
nos gelos da solidão
Noite a do silêncio que abriga
uma angústia ressequida
nas cinzas duma canção

Noite companheira da incerteza
catapulta de ilusões
manto de sonho e de cio
Noite a fogueira sempre acesa
alimentando os vulcões
dos corpos em desvario

Noite onde germinam conversas
onde as palavras se perdem
em sílabas murmuradas
Noite o centro de mil promessas
que se compram que se vendem
e outras tantas adiadas

Noite tempo lento dum percurso
que vai do meu corpo ao teu
em dádivas de ternura
Noite o derradeiro recurso
de alguém que tal como eu
vive da noite a aventura

Noite com ela vens de mansinho
à alcova dos meus segredos
que vou partilhar contigo
Trazes da noite todo o carinho
que desliza entre os meus dedos
e adormeces comigo

(Poema de
Fernando Peixoto in Arca de Ternura)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Sonho... de uma noite que não existiu...

A música ainda soa nos meus ouvidos e o bater do coração testemunha os momentos vividos...
Cuidadosamente, retiro o longo vestido azul e coloco-o no cadeirão, enquanto num gesto suave, solto os cabelos presos no alto da cabeça, que caem revoltos sobre os ombros, enquanto um sorriso ilumina o meu rosto.
Recordo as suas mãos suaves no meu corpo, o cheiro agradável que dele emana quando me ergue nos seus braços sólidos e rodopia comigo a valsa que a orquestra entoa…
Olho-me no enorme espelho à minha frente e como num sonho revejo aqueles momentos, a música continua a tocar e eu deixo-me embalar pela melodia…
Sonhos… quem não os tem?


(p.f. desligar a música de fundo, para ver o vídeo)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Um poema escrito neste ano que chega ao fim"


Pintura de Picasso


pode ser só o que está escrito
no que é escrito sem o ser;

e só se escrevo que tudo está dito
sei o que o poema quer dizer:

ser escrito sem que tenha de o escrever,
dizendo só o que tive de dizer.

Nuno Júdice

domingo, 16 de dezembro de 2007

domingo, 9 de dezembro de 2007

Somewhere Over The Rainbow...

Versão original de Somewhere Over The Rainbow, interpretada por Judy Garland, que me foi gentilmente endereçada e que agradeço, desde já...


(Para ver o vídeo, por favor desligar a música de fundo)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Era novembro


Almada Negreiros daqui




Pelo lado interior do tempo
assinalo, com traços de luz,
a cidade litoral onde nasci,
rente à fragilidade do outono.
Era novembro
e uma estranha sede
pairava sobre a terra,
ávida de líquidas paisagens,
quando minha mãe
me tomou nos braços
e disse: esta é a minha filha.
O seu corpo doía de tanta comoção.



Poema de Graça Pires, que aqui transcrevo com um grande abraço de parabéns pelo seu Aniversário