Toque leve do seu corpo que entrelaça, bolero ou tango que perpassa
Porque eles são fogo que incendeia ilusão que desnorteia música que rodopia. Atentos, o olhar no olhar, murmúrios alados - maestro da harmonia – num bailado sensual que extasia.
Há dentro dos corpos uma chama de sangue vermelho que clama Paixão
Quando a véspera do mais prolongado sossego me fere a solidão da infância quero um momento, apenas um momento, para que o excesso de luz a prumo amotine as palavras nos meus lábios e as confunda com a quietude urgente da paisagem. De pulsos iluminados poiso a voz no fundo da tristeza, para expor a voz de outrora: no dia mais bonito que vier irei, sem rumo algum, ao deus-dará, procurar um lugar para morrer, as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.
Poema de Graça Pires in "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos", pág. 38
Conheces o intervalo do silêncio, a subtileza de uma música. A palavra amor ou a palavra livro.
Escrevo, No rumor da manhã um nome mágico, como uma rosa perdida no frio ou da neblina. O teu, talvez recuperado à pressa das águas.
Escrevo, Um cântico cibernético, cintilante na cicatriz dos ventos. A árvore de silêncios e presságios.
Por que reconheces uma flor no desenho velocíssimo de uma asa. O mar da tranquilidade nos nossos ventos.
Conheces: os livros por dentro, a demora da sua gestação. Os livros que removem ou crescem, na lava e nos fermentos.
Quando cresce a palavra fluente encantada nas árvores, quando crescemos nós nos livros. Esse pão ou fruto de tinta permanente a cavalo do tempo seguinte.
(Poema de José Laurindo Leal de Góis*)
* Poeta e jornalista português, José Laurindo Leal de Góis, nasceu no Funchal, em 1954. Iniciou-se no jornalismo radiofónico nos anos 73-75. Revelou-se como poeta no "Suplemento 2000" e na página "Letras & Artes" do Jornal da Madeira, fundado e dirigido por José António Gonçalves, vindo, por este, a ser inserido nos quatro volumes antológicos de poetas madeirenses: Ilha (1975), Ilha 2 (1979), Ilha 3 (1991) e Ilha 4 (1994). Colabora com textos ensaísticos na "Margem" e na "Islenha", depois de ter participado na extinta "Atlântico". Em 2003, estreou-se em edição individual com o livro de poesia O Fogo e a Lágrima (Campo das Letras, 2003). Está representado na antologia Poeti Contemporani dell'Isola di Madera, organizada e traduzida para italiano por Giampaolo Tonini (Centro Internazionale della Grafica de Venezia, 2001). (enviado por email)
O poema nasceu e eu nem estava lá a enaltecer a sua criação. Foi o poema que me fez crescer, porque concebe-se nasce sozinho, tem vida própria, sentimentos e sentidos tão apurados que nem sabemos como ele eclodiu entre os olhos prodigiosos das palavras.
O poema voa para lá dos sentidos, da própria carne. É o cerne do pensamento irrompendo além do mundo a que me dou, que me possui e me liberta.
O poema é o próprio poeta. Tem a visão da humanidade sente a liquidez das palavras consensuais, do riso, da dor, de utopia em utopia ele cresce, amadurece, dá-se na vertente do conceito filosófico da razão e floresce na terra germinada de amorO poema desabrochou e sobreviveu.
O Poeta escrevia: “todas as cartas de amor são ridículas”…
E o riso morre no coração que não derrama amor dimensão infinita do sonho contendo toda a grandeza de um céu invadido de estrelas no espelho que os deuses esculpiram na face da lua onde as noites são límpidas e transparentes como o sonho dos amantes
Eis a palavra que perdeu a memória e da viagem por todo o universo, ela sente o afiar dos espinhos que os dedos cobiçam porque é no sangue derramado que a palavra se solta escrevendo o poema num grito do coração…
Eram verdes de esperança as nuvens do meu olhar azul minha ilusão e rosa o meu sonhar.
Como uma nuvem por mim passaste e no silêncio da noite, vislumbrei-te na escuridão que largaste nas tuas palavras; as lágrimas que deixaste no meu rosto perscrutam o horizonte longínquo, que outrora nos aproximou…
Adensam-se espessas nuvens que num tornado dentro da minha alma, gota a gota, deslizam no oceano da desilusão.
De que cor são as nuvens no teu olhar? De que cor, as palavras que te saem do coração?
Por entre nuvens de dor e silêncio se veste o meu olhar nesta forma pueril de sentir e amar.
Após inúmeros pedidos de pessoas que de alguma forma estabeleceram um vínculo com o meu blogue, que por minha própria iniciativa tinha decidido eliminar, já que é minha intenção manter-me afastada da blogosfera, decidi por respeito a todas essas pessoas e, ainda mais, aos autores dos trabalhos que aqui vinha promovendo, activar o blogue mantendo-o para memória futura. Aqui fica pois, o meu respeito e amizade por todos vós e o agradecimento, pelos inolvidáveis momentos que partilhámos.
Agradeço ainda, a prestimosa ajuda da Piedade Araújo Sol, do Jeremias e doAC (que não quer ser identificado) na activação deste blogue, sem a qual, isso nunca seria possível.
É sempre com uma imensa alegria no coração, que leio as mensagens que deixam nesta minha modesta página. Hoje essa alegria foi maior, ao ler um pequeno poema, que foi deixado num comentário e que me encantou, pela sua enorme poética. Aqui o partilho
Pintura de Gabriel Picart
Cantou uma só vez o rouxinol Ao alvorecer E tudo se suspendeu Sem um querer. Foi nesse curto espaço Que vi ruir O vigor, a sorte, o encanto. Ó perene existir! (Poema de Mário Matta e Silva)
...e sempre o mar por perto; a estrela d'alva terá como destino acolhedor fazer desse mar um mar de amor aos primeiros alvores da madrugada... e que força tem e que esplendor emerge, do dia que aparece ao toque do sol, que entontece as abelhas, pelas giestas desta vida! Rompe então suave, quase dormida da palidez marmórea do nascente o encanto da cor aurea e quente dum raio de luz; sol que beija o mar ondulante e a carqueja da costa mais agreste e alcantilada... depois esvai-se em cor a madrugada enquanto todo amor o mar arqueja!...
Tudo o que ficou por dizer porque de repente era a hora do combóio ou um telefone longínquo tocava ou um qualquer acidente aconteceu.
Tudo o que ficou por dizer porque o pudor calou a voz porque um orgulho surdo a interrompeu porque as palavras talvez já nem chegassem ou era tarde e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.
Tudo o que ficou por dizer porque a dor doía em demasia e era necessário que as palavras fossem capazes de ser claras como o ar porque as palavras traem como gumes de facas que nos cortam.
Tudo o que ficou por dizer porque a tristeza apertou tanto a garganta que nenhum som saía nem o olhar continha em desespero uma lágrima ainda assim contida.
Tudo o que ficou por dizer porque o tempo urgente se esvaía e de repente já não estava no lugar a quem havia que o dizer quem ainda há pouco nos ouvia.
Tudo o que ficou por dizer e tudo o que ficou por dizer ou tudo sempre por dizer. (Poema de Bernardo Pinto de Almeida)
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto é matéria. Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo.
Noite que te interpões de permeio entre a queda do poente e o despontar da alvorada Noite em que me perco e me enleio numa teia entorpecente tecida pela madrugada
Noite de náufragos à deriva de tempestade escondida nos gelos da solidão Noite a do silêncio que abriga uma angústia ressequida nas cinzas duma canção
Noite companheira da incerteza catapulta de ilusões manto de sonho e de cio Noite a fogueira sempre acesa alimentando os vulcões dos corpos em desvario
Noite onde germinam conversas onde as palavras se perdem em sílabas murmuradas Noite o centro de mil promessas que se compram que se vendem e outras tantas adiadas
Noite tempo lento dum percurso que vai do meu corpo ao teu em dádivas de ternura Noite o derradeiro recurso de alguém que tal como eu vive da noite a aventura
Noite com ela vens de mansinho à alcova dos meus segredos que vou partilhar contigo Trazes da noite todo o carinho que desliza entre os meus dedos e adormeces comigo
A música ainda soa nos meus ouvidos e o bater do coração testemunha os momentos vividos...
Cuidadosamente, retiro o longo vestido azul e coloco-o no cadeirão, enquanto num gesto suave, solto os cabelos presos no alto da cabeça, que caem revoltos sobre os ombros, enquanto um sorriso ilumina o meu rosto. Recordo as suas mãos suaves no meu corpo, o cheiro agradável que dele emana quando me ergue nos seus braços sólidos e rodopia comigo a valsa que a orquestra entoa… Olho-me no enorme espelho à minha frente e como num sonho revejo aqueles momentos, a música continua a tocar e eu deixo-me embalar pela melodia… Sonhos… quem não os tem?
(p.f. desligar a música de fundo, para ver o vídeo)
Pelo lado interior do tempo assinalo, com traços de luz, a cidade litoral onde nasci, rente à fragilidade do outono. Era novembro e uma estranha sede pairava sobre a terra, ávida de líquidas paisagens, quando minha mãe me tomou nos braços e disse: esta é a minha filha. O seu corpo doía de tanta comoção.
Poema de Graça Pires, que aqui transcrevo com um grande abraço de parabéns pelo seu Aniversário