Após inúmeros pedidos de pessoas que de alguma forma estabeleceram um vínculo com o meu blogue, que por minha própria iniciativa tinha decidido eliminar, já que é minha intenção manter-me afastada da blogosfera, decidi por respeito a todas essas pessoas e, ainda mais, aos autores dos trabalhos que aqui vinha promovendo, activar o blogue mantendo-o para memória futura. Aqui fica pois, o meu respeito e amizade por todos vós e o agradecimento, pelos inolvidáveis momentos que partilhámos.
Agradeço ainda, a prestimosa ajuda da Piedade Araújo Sol, do Jeremias e doAC (que não quer ser identificado) na activação deste blogue, sem a qual, isso nunca seria possível.
É sempre com uma imensa alegria no coração, que leio as mensagens que deixam nesta minha modesta página. Hoje essa alegria foi maior, ao ler um pequeno poema, que foi deixado num comentário e que me encantou, pela sua enorme poética. Aqui o partilho
Pintura de Gabriel Picart
Cantou uma só vez o rouxinol Ao alvorecer E tudo se suspendeu Sem um querer. Foi nesse curto espaço Que vi ruir O vigor, a sorte, o encanto. Ó perene existir! (Poema de Mário Matta e Silva)
...e sempre o mar por perto; a estrela d'alva terá como destino acolhedor fazer desse mar um mar de amor aos primeiros alvores da madrugada... e que força tem e que esplendor emerge, do dia que aparece ao toque do sol, que entontece as abelhas, pelas giestas desta vida! Rompe então suave, quase dormida da palidez marmórea do nascente o encanto da cor aurea e quente dum raio de luz; sol que beija o mar ondulante e a carqueja da costa mais agreste e alcantilada... depois esvai-se em cor a madrugada enquanto todo amor o mar arqueja!...
Tudo o que ficou por dizer porque de repente era a hora do combóio ou um telefone longínquo tocava ou um qualquer acidente aconteceu.
Tudo o que ficou por dizer porque o pudor calou a voz porque um orgulho surdo a interrompeu porque as palavras talvez já nem chegassem ou era tarde e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.
Tudo o que ficou por dizer porque a dor doía em demasia e era necessário que as palavras fossem capazes de ser claras como o ar porque as palavras traem como gumes de facas que nos cortam.
Tudo o que ficou por dizer porque a tristeza apertou tanto a garganta que nenhum som saía nem o olhar continha em desespero uma lágrima ainda assim contida.
Tudo o que ficou por dizer porque o tempo urgente se esvaía e de repente já não estava no lugar a quem havia que o dizer quem ainda há pouco nos ouvia.
Tudo o que ficou por dizer e tudo o que ficou por dizer ou tudo sempre por dizer. (Poema de Bernardo Pinto de Almeida)
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto é matéria. Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo.
Noite que te interpões de permeio entre a queda do poente e o despontar da alvorada Noite em que me perco e me enleio numa teia entorpecente tecida pela madrugada
Noite de náufragos à deriva de tempestade escondida nos gelos da solidão Noite a do silêncio que abriga uma angústia ressequida nas cinzas duma canção
Noite companheira da incerteza catapulta de ilusões manto de sonho e de cio Noite a fogueira sempre acesa alimentando os vulcões dos corpos em desvario
Noite onde germinam conversas onde as palavras se perdem em sílabas murmuradas Noite o centro de mil promessas que se compram que se vendem e outras tantas adiadas
Noite tempo lento dum percurso que vai do meu corpo ao teu em dádivas de ternura Noite o derradeiro recurso de alguém que tal como eu vive da noite a aventura
Noite com ela vens de mansinho à alcova dos meus segredos que vou partilhar contigo Trazes da noite todo o carinho que desliza entre os meus dedos e adormeces comigo
A música ainda soa nos meus ouvidos e o bater do coração testemunha os momentos vividos...
Cuidadosamente, retiro o longo vestido azul e coloco-o no cadeirão, enquanto num gesto suave, solto os cabelos presos no alto da cabeça, que caem revoltos sobre os ombros, enquanto um sorriso ilumina o meu rosto. Recordo as suas mãos suaves no meu corpo, o cheiro agradável que dele emana quando me ergue nos seus braços sólidos e rodopia comigo a valsa que a orquestra entoa… Olho-me no enorme espelho à minha frente e como num sonho revejo aqueles momentos, a música continua a tocar e eu deixo-me embalar pela melodia… Sonhos… quem não os tem?
(p.f. desligar a música de fundo, para ver o vídeo)
Pelo lado interior do tempo assinalo, com traços de luz, a cidade litoral onde nasci, rente à fragilidade do outono. Era novembro e uma estranha sede pairava sobre a terra, ávida de líquidas paisagens, quando minha mãe me tomou nos braços e disse: esta é a minha filha. O seu corpo doía de tanta comoção.
Poema de Graça Pires, que aqui transcrevo com um grande abraço de parabéns pelo seu Aniversário
Entre nós Há palavras Desenhadas no Silêncio da noite. Entre nós Há desejos E carícias Em cada palavra Que se não Pronuncia Entre nós Há muros de silêncios Derrubados Em cada maré Que se adivinha… Entre nós… Permanecemos.
Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar (Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
(Para ver o vídeo, por favor desligar a música de fundo)
Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza Lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira De tornar de cristal A mais sentimental E baça Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo E ninguém me deseje apaixonado, Ou que a antiga paixão Me mantenha calado O coração Num íntimo pudor, Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor
Pois muito bem… a resposta que interpreta o sentir com que foi colocada tal pergunta, foi respondida pelo Manuel do Montado
"Tal como a canção de RC fala de baleias que as futuras gerações, caso as extingamos, só poderão ver "em velhos livros ou nos filmes dos arquivos dos programas vespertinos de televisão", a crescente poluição do planeta conduzirá a que num futuro já ali à frente, as crianças só conheçam o sol por desenhos. Já acontece assim na cidade mais poluída do planeta na China. Assim entendi as duas mensagens." (ver o comentário no post anterior)
Pintura de Jackson Hensley
O homem é o único predador que mata por prazer, até os da sua espécie
(Desligar a música de fundo, para ouvir o vídeo, p.f.)
*O pintor iraniano Iman Maleki, génio do realismo, ganhou o prémio William Bouguereau e o Chairman´s Choise no II Concurso Internacional de Art Renewal Center. Muitos o consideram o melhor pintor de arte realista do mundo.
Se eu pudesse atingir a quietude das coisas simples, a serenidade das harmonias mortas, e dormitar na inconsciência de tudo quanto não existe!
Se eu pudesse banir a melancolia, porque me atormenta, me afunda, me reduz ao desespero de não saber viver!
Se eu pudesse perseverar em ser alegre, fruir confiança e reter na minha alma somente os momentos divinos de prazer!
Viver só por viver! Nada querer além da vida, não devassar meu eu, e embalar-me tranquilamente na esperança dos meus sonhos!Ah! Se eu pudesse adormecer!...
(das minhas memórias...)
Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
"Quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar. " (Sophia de Mello Breyner Andresen)
Pela passagem do terceiro aniversário de Sophia Andresen, trago aqui um poema, em sua homenagem...
Imagem de autor desconhecido
Contou-nos tempos templos e distâncias Na deslumbrante transparência dos regressos Falou-nos dos palácios e da sabedoria dos gregos Cantou-nos deuses mitos e poetas E marejou sob as velas dos portugueses No oiro límpido de todos os poemas
Ensinou-nos a escutar o vento O impulso cadenciado das ondas O rumorejo cristalino das fontes E a admirar o fulgor dos espelhos de água Que incendeiam de brilhos as ilhas esmeraldinas
Exortou-nos a amar a lua e as estrelas E o encanto nocturno do seu silêncio E a apreciar a claridade e a nudez do dia Nos reflexos de sol dos horizontes Onde a paz se funde com a harmonia
Ensinou-nos a comungar a terra e as flores E o balançar ritmado do feno e das espigas A haurir o perfume dos pinhais e da maresia A admirar o voo e o cântico das aves E a maravilha das sombras e das cores Onde a terra-mãe fala com as árvores
Falou-nos da paz que imana do amor e da verdade E levou-nos às auroras onde mora o sol E ao esplendor da justiça e da liberdade Onde brotam as rosas do tempo inicial Poema deZénite