
Imagem de Mariana Ximenes
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
(António Gedeão in Máquina do Mundo)
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Intervalo...
domingo, 13 de janeiro de 2008
noite
Noite que te interpões de permeio
entre a queda do poente
e o despontar da alvorada
Noite em que me perco e me enleio
numa teia entorpecente
tecida pela madrugada
Noite de náufragos à deriva
de tempestade escondida
nos gelos da solidão
Noite a do silêncio que abriga
uma angústia ressequida
nas cinzas duma canção
Noite companheira da incerteza
catapulta de ilusões
manto de sonho e de cio
Noite a fogueira sempre acesa
alimentando os vulcões
dos corpos em desvario
Noite onde germinam conversas
onde as palavras se perdem
em sílabas murmuradas
Noite o centro de mil promessas
que se compram que se vendem
e outras tantas adiadas
Noite tempo lento dum percurso
que vai do meu corpo ao teu
em dádivas de ternura
Noite o derradeiro recurso
de alguém que tal como eu
vive da noite a aventura
Noite com ela vens de mansinho
à alcova dos meus segredos
que vou partilhar contigo
Trazes da noite todo o carinho
que desliza entre os meus dedos
e adormeces comigo
(Poema de Fernando Peixoto in Arca de Ternura)
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Sonho... de uma noite que não existiu...
Recordo as suas mãos suaves no meu corpo, o cheiro agradável que dele emana quando me ergue nos seus braços sólidos e rodopia comigo a valsa que a orquestra entoa…
Olho-me no enorme espelho à minha frente e como num sonho revejo aqueles momentos, a música continua a tocar e eu deixo-me embalar pela melodia…
Sonhos… quem não os tem?
(p.f. desligar a música de fundo, para ver o vídeo)
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
"Um poema escrito neste ano que chega ao fim"

Pintura de Picasso
pode ser só o que está escrito
no que é escrito sem o ser;
e só se escrevo que tudo está dito
sei o que o poema quer dizer:
ser escrito sem que tenha de o escrever,
dizendo só o que tive de dizer.
Nuno Júdice
domingo, 16 de dezembro de 2007
domingo, 9 de dezembro de 2007
Somewhere Over The Rainbow...
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Era novembro

Almada Negreiros daqui
Pelo lado interior do tempo
assinalo, com traços de luz,
a cidade litoral onde nasci,
rente à fragilidade do outono.
Era novembro
e uma estranha sede
pairava sobre a terra,
ávida de líquidas paisagens,
quando minha mãe
me tomou nos braços
e disse: esta é a minha filha.
O seu corpo doía de tanta comoção.
Poema de Graça Pires, que aqui transcrevo com um grande abraço de parabéns pelo seu Aniversário
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Silêncio e Ternura...
Entre nós
Há palavras
Desenhadas no
Silêncio da noite.
Entre nós
Há desejos
E carícias
Em cada palavra
Que se não
Pronuncia
Entre nós
Há muros de silêncios
Derrubados
Em cada maré
Que se adivinha…
Entre nós…
Permanecemos.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Para todos os apaixonados...
(Para ver o vídeo, por favor desligar a música de fundo)
Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
(Poema de Miguel Torga)
domingo, 12 de agosto de 2007
Sinto...
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Poema de Fernando Pessoa
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Desafio...
“ Uma imagem e uma canção… que terão de comum?”
"Tal como a canção de RC fala de baleias que as futuras gerações, caso as extingamos, só poderão ver "em velhos livros ou nos filmes dos arquivos dos programas vespertinos de televisão", a crescente poluição do planeta conduzirá a que num futuro já ali à frente, as crianças só conheçam o sol por desenhos. Já acontece assim na cidade mais poluída do planeta na China.
Assim entendi as duas mensagens." (ver o comentário no post anterior)
O homem é o único predador que mata por prazer, até os da sua espécie
domingo, 29 de julho de 2007
Interrogações...
Uma imagem e uma canção… que terão de comum?
(Desligar a música de fundo, para ouvir o vídeo, p.f.)
* O pintor iraniano Iman Maleki, génio do realismo, ganhou o prémio William Bouguereau e o Chairman´s Choise no II Concurso Internacional de Art Renewal Center. Muitos o consideram o melhor pintor de arte realista do mundo.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Se eu pudesse...
Se eu pudesse atingir
a quietude das coisas simples,
a serenidade das harmonias mortas,
e dormitar na inconsciência
de tudo quanto não existe!
Se eu pudesse banir a melancolia,
porque me atormenta,
me afunda,
me reduz ao desespero de não saber viver!
Se eu pudesse perseverar em ser alegre,
fruir confiança
e reter na minha alma
somente os momentos divinos de prazer!
Viver só por viver!
Nada querer além da vida,
não devassar meu eu,
e embalar-me tranquilamente
na esperança
dos meus sonhos!Ah! Se eu pudesse adormecer!...
sábado, 14 de julho de 2007
Mar eterno...
os instantes que não vivi junto do mar. "
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Pela passagem do terceiro aniversário de Sophia Andresen, trago aqui um poema, em sua homenagem...
Contou-nos tempos templos e distâncias
Na deslumbrante transparência dos regressos
Falou-nos dos palácios e da sabedoria dos gregos
Cantou-nos deuses mitos e poetas
E marejou sob as velas dos portugueses
No oiro límpido de todos os poemas
Ensinou-nos a escutar o vento
O impulso cadenciado das ondas
O rumorejo cristalino das fontes
E a admirar o fulgor dos espelhos de água
Que incendeiam de brilhos as ilhas esmeraldinas
Exortou-nos a amar a lua e as estrelas
E o encanto nocturno do seu silêncio
E a apreciar a claridade e a nudez do dia
Nos reflexos de sol dos horizontes
Onde a paz se funde com a harmonia
Ensinou-nos a comungar a terra e as flores
E o balançar ritmado do feno e das espigas
A haurir o perfume dos pinhais e da maresia
A admirar o voo e o cântico das aves
E a maravilha das sombras e das cores
Onde a terra-mãe fala com as árvores
Falou-nos da paz que imana do amor e da verdade
E levou-nos às auroras onde mora o sol
E ao esplendor da justiça e da liberdade
Onde brotam as rosas do tempo inicial
Poema de Zénite
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Doce Surpresa...
A uma amiga que seja.
Limpidez e terapia
A confidência ainda
No desespero do mundo.
Teus cabelos têm valia
De uma noitada linda
Com maravilhante magia
De luar fecundo.
Ah dulcíssima loucura
De sonetos vinicianos!
Em teu ar de candura
Moldura jura de planos
Assim de alheias dores
Lavassem-se dos desenganos
E em pacificantes cores
Neste ínterim
Amassem, SIM!
Poema de Freddy Diblu
domingo, 1 de julho de 2007
Musicalidade
Sob a musicalidade de teus dedos
percorrendo meu corpo,
sôfrego de ti....
transportas-me ao sonho,
revivendo momentos
de poesia sem fim.
Transporta-me ao sonho,
acolhe-me nos teus braços
numa valsa sagrada
que é o momento
em que me vejo
dentro de ti.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Vida
Nos meus olhos sinto o oceano desaguar lentamente no teu abraço e na minha pele depositas um longo beijo que abrasa o meu corpo, serenando o meu espírito repleto de ternura e no teu corpo me enlaço.
Desnudas o sonho da palavra que nada diz e o silêncio quebra-se, como rocha que não sente ternura, porque
no cruzamento
da vida
tantas vezes
vivida
alegre
doce
outras,
amarga e triste,
mas
aberta à alegria
do contentamento
em que a chuva
não apaga
as marcas
deixadas
numa vida
sentida
ao sabor
do destino
que não somos nós
que o criamos,
mas ajudamos
a existir.
quinta-feira, 7 de junho de 2007
terça-feira, 5 de junho de 2007
se a palavra dissesse exactamente o que diz
São assim, os caminhos intermináveis da blogosfera…
Se a palavra dissesse exactamente o que diz
nunca atingiria a cintilante transparência
que tem a frescura do que é novo e do que é frágil
Se ela tem o suave alvoroço do primeiro dia
é porque venceu a preguiça das raízes
e despertou no centro da argila
não para ser rosa pedra ou ave
mas para acariciar a distância ou um incerto lábio
Nunca poderá ser corola de ouro ou ânfora de lua
porque é frágil e oscila como uma asa de mercúrio
Mas a sua sede traça um ingénuo caminho
Ao ritmo de uma harpa de veias sussurrantes
(Poema de António Ramos Rosa)















