Noite que te interpões de permeio
entre a queda do poente
e o despontar da alvorada
Noite em que me perco e me enleio
numa teia entorpecente
tecida pela madrugada
Noite de náufragos à deriva
de tempestade escondida
nos gelos da solidão
Noite a do silêncio que abriga
uma angústia ressequida
nas cinzas duma canção
Noite companheira da incerteza
catapulta de ilusões
manto de sonho e de cio
Noite a fogueira sempre acesa
alimentando os vulcões
dos corpos em desvario
Noite onde germinam conversas
onde as palavras se perdem
em sílabas murmuradas
Noite o centro de mil promessas
que se compram que se vendem
e outras tantas adiadas
Noite tempo lento dum percurso
que vai do meu corpo ao teu
em dádivas de ternura
Noite o derradeiro recurso
de alguém que tal como eu
vive da noite a aventura
Noite com ela vens de mansinho
à alcova dos meus segredos
que vou partilhar contigo
Trazes da noite todo o carinho
que desliza entre os meus dedos
e adormeces comigo
(Poema de Fernando Peixoto in Arca de Ternura)


















