quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Era novembro


Almada Negreiros daqui




Pelo lado interior do tempo
assinalo, com traços de luz,
a cidade litoral onde nasci,
rente à fragilidade do outono.
Era novembro
e uma estranha sede
pairava sobre a terra,
ávida de líquidas paisagens,
quando minha mãe
me tomou nos braços
e disse: esta é a minha filha.
O seu corpo doía de tanta comoção.



Poema de Graça Pires, que aqui transcrevo com um grande abraço de parabéns pelo seu Aniversário

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Silêncio e Ternura...

Pintura de Daniel Plante

Entre nós
Há palavras
Desenhadas no
Silêncio da noite.
Entre nós
Há desejos
E carícias
Em cada palavra
Que se não
Pronuncia
Entre nós
Há muros de silêncios
Derrubados
Em cada maré
Que se adivinha…


Entre nós…
Permanecemos.




Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar 
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

...

Ausência, German Diaz

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Para todos os apaixonados...


(Para ver o vídeo, por favor desligar a música de fundo)


Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor

(Poema de Miguel Torga)

domingo, 12 de agosto de 2007

Sinto...

Pintura de Francine Van Hove

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


Poema de Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Desafio...

Propus no meu último post, publicar o comentário que mais se aproximasse da interrogação que eu fazia:

Uma imagem e uma canção… que terão de comum?”

Pintura de Iman Maleki

Pois muito bem… a resposta que interpreta o sentir com que foi colocada tal pergunta, foi respondida pelo Manuel do Montado

"Tal como a canção de RC fala de baleias que as futuras gerações, caso as extingamos, só poderão ver "em velhos livros ou nos filmes dos arquivos dos programas vespertinos de televisão", a crescente poluição do planeta conduzirá a que num futuro já ali à frente, as crianças só conheçam o sol por desenhos. Já acontece assim na cidade mais poluída do planeta na China.
Assim entendi as duas mensagens." (ver o comentário no post anterior)
Pintura de Jackson Hensley

O homem é o único predador que mata por prazer, até os da sua espécie

domingo, 29 de julho de 2007

Interrogações...

Dedicado a um Amigo que me recordou esta canção…
Pintura de *Iman Maleki

Uma imagem e uma canção… que terão de comum?

(Desligar a música de fundo, para ouvir o vídeo, p.f.)

* O pintor iraniano Iman Maleki, génio do realismo, ganhou o prémio William Bouguereau e o Chairman´s Choise no II Concurso Internacional de Art Renewal Center. Muitos o consideram o melhor pintor de arte realista do mundo.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Se eu pudesse...

Imagem de Stéphane Bulan

Se eu pudesse atingir
a quietude das coisas simples,
a serenidade das harmonias mortas,
e dormitar na inconsciência
de tudo quanto não existe!

Se eu pudesse banir a melancolia,
porque me atormenta,
me afunda,
me reduz ao desespero de não saber viver!

Se eu pudesse perseverar em ser alegre,
fruir confiança
e reter na minha alma
somente os momentos divinos de prazer!

Viver só por viver!
Nada querer além da vida,
não devassar meu eu,
e embalar-me tranquilamente
na esperança
dos meus sonhos!
Ah! Se eu pudesse adormecer!...
(das minhas memórias...)


Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar (Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sábado, 14 de julho de 2007

Mar eterno...

"Quando eu morrer, voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar. "
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Pela passagem do terceiro aniversário de Sophia Andresen, trago aqui um poema, em sua homenagem...
Imagem de autor desconhecido

Contou-nos tempos templos e distâncias
Na deslumbrante transparência dos regressos
Falou-nos dos palácios e da sabedoria dos gregos
Cantou-nos deuses mitos e poetas
E marejou sob as velas dos portugueses
No oiro límpido de todos os poemas

Ensinou-nos a escutar o vento
O impulso cadenciado das ondas
O rumorejo cristalino das fontes
E a admirar o fulgor dos espelhos de água
Que incendeiam de brilhos as ilhas esmeraldinas

Exortou-nos a amar a lua e as estrelas
E o encanto nocturno do seu silêncio
E a apreciar a claridade e a nudez do dia
Nos reflexos de sol dos horizontes
Onde a paz se funde com a harmonia

Ensinou-nos a comungar a terra e as flores
E o balançar ritmado do feno e das espigas
A haurir o perfume dos pinhais e da maresia
A admirar o voo e o cântico das aves
E a maravilha das sombras e das cores
Onde a terra-mãe fala com as árvores

Falou-nos da paz que imana do amor e da verdade
E levou-nos às auroras onde mora o sol
E ao esplendor da justiça e da liberdade
Onde brotam as rosas do tempo inicial


Poema de Zénite

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Doce Surpresa...

O mundo virtual oferece-nos por vezes, momentos únicos de afabilidade e carinho, através de pessoas que apesar de não conhecerem pessoalmente, nos dedicam gestos, como o que aqui partilho

Pintura de Delphin Enjorlas

A uma amiga que seja.
És o afago profundo
Limpidez e terapia
A confidência ainda
No desespero do mundo.
Teus cabelos têm valia
De uma noitada linda
Com maravilhante magia
De luar fecundo.

Ah dulcíssima loucura
De sonetos vinicianos!
Em teu ar de candura
Moldura jura de planos
Assim de alheias dores
Lavassem-se dos desenganos
E em pacificantes cores
Neste ínterim
Amassem, SIM!


Poema de Freddy Diblu

domingo, 1 de julho de 2007

Musicalidade

 Pintura de Jan Thompson Dicks

Sob a musicalidade de teus dedos
percorrendo meu corpo,
sôfrego de ti....
transportas-me ao sonho,
revivendo momentos
de poesia sem fim.

Transporta-me ao sonho,
acolhe-me nos teus braços
numa valsa sagrada
que é o momento
em que me vejo
dentro de ti.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Vida

Pintura de Wilson Henry Irvine


Nos meus olhos sinto o oceano desaguar lentamente no teu abraço e na minha pele depositas um longo beijo que abrasa o meu corpo, serenando o meu espírito repleto de ternura e no teu corpo me enlaço.
Desnudas o sonho da palavra que nada diz e o silêncio quebra-se, como rocha que não sente ternura, porque

no cruzamento
da vida
tantas vezes
vivida
alegre
doce
outras,
amarga e triste,
mas
aberta à alegria
do contentamento
em que a chuva
não apaga
as marcas
deixadas
numa vida
sentida
ao sabor
do destino
que não somos nós
que o criamos,
mas ajudamos
a existir.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Porque o descanso é preciso…

Imagem de autor desconhecido

“Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
Todos os pensamentos de amor serão os seus pensamentos.”
(René Char in “A Religião do Girassol –pág. 31)




Até breve...

terça-feira, 5 de junho de 2007

se a palavra dissesse exactamente o que diz

Passeava calmamente por entre as alamedas da blogosfera quando, ao entrar aqui deixei-me fascinar pelo conjunto que se me deparou. Mesmo sem "licença" da dona da casa, resolvi partilhar convosco este emocionante momento…
São assim, os caminhos intermináveis da blogosfera…
Imagem de Maria do C'eu Costa

Se a palavra dissesse exactamente o que diz
nunca atingiria a cintilante transparência
que tem a frescura do que é novo e do que é frágil
Se ela tem o suave alvoroço do primeiro dia

é porque venceu a preguiça das raízes
e despertou no centro da argila
não para ser rosa pedra ou ave
mas para acariciar a distância ou um incerto lábio

Nunca poderá ser corola de ouro ou ânfora de lua
porque é frágil e oscila como uma asa de mercúrio
Mas a sua sede traça um ingénuo caminho
Ao ritmo de uma harpa de veias sussurrantes



(Poema de António Ramos Rosa)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Iniciação

Imagem de Hory Ma

Há os que vêm de longe, trazendo nas mãos
e nas pálpebras o mar exilado.

À porta descalçam as sandálias
gastas de inventariar o pó,
e antes que entrem na casa do poema
coroam-se de silêncio e silvas.

Percorrem depois longamente as paredes
fechando janelas onde não existem,
e rente à cegueira vão recolhendo as aves
que tropeçam na luz dos dedos.

Grandes rios negros atravessam a noite e os pulsos,
e as palavras doem nas unhas como espinhos acesos.

E há os outros, os que rondaram desde sempre
a casa sem se atreverem a entrar.

Falo dos que percorrem a lâmina do poema
medindo a eternidade pela distância
que vai dos lábios ao nome.

Dos que bebem as árvores entornadas nas palavras,
e esperam que dos gestos caiam os últimos deuses
destronados pelo rasgar dos frutos.

Falo dos que vêm do lado da loucura
e trazem na boca os olhos
com que quiseram acender todos os fogos.

Dos que viajam a cinza e o assombro,
demorando-se em tudo o que mais ninguém tropeça.

("Iniciação ao Remorso" de Jorge Melícias"A Mar Arte", 1998)

domingo, 27 de maio de 2007

ÊXTASE POÉTICO

Pintura de Gustav Klimt

Este texto é um levantar de véus…
Ando para escrevê-lo há muito…
Contudo, foi-se apoderando de mim um medo imenso de não ser capaz de transmitir o que sinto, de não saber mostrar que fazer amor pode ser um acto poético, tal como o êxtase pode ser um poema. Isto, porque quando se escreve, não é bem o que se faz mas sim o que se sente e se sonha.
Será que as palavras me vão sair fluentes?
(Será que o meu olhar vai alcançar o teu?)
(Será que as minhas mãos vão tocar as tuas, te vão tocar?)
As palavras serão apenas um meio para que possa ser escutado o que o meu olhar diz.
Porque é com o olhar que a grande festa começa.
Olhar, é já uma manifestação poética, como o são todas as manifestações da vida, sendo que a poesia é uma forma de estar vivo, e não apenas um aglomerado de símbolos numa folha de um livro ou de um pequeno caderno.
Olhar é penetrar o outro, é estabelecer essa corrente de conhecimento interior e vívido que o outro deseja deixar que se conheça, que o outro deixa que seja conhecido. Do qual, ambos desejam usufruir.
O olhar transforma-se e transforma-nos. As mãos encontram-se, passando a essência de um para o outro, desenhando-a em desenhos ousados nos corpos dos dois amantes.
À arte poética junta-se a pintura. E os corpos tornam-se telas impressionistas, difusas mas plenas de cor e de emoção.
Tudo resplandece à nossa volta.
Sonha-se a música.
Ela sai de nós em cada sussurro de amor, em cada gemido de prazer. E, em crescendo, acompanha a dança de dois corpos que se unem e se completam.
As mãos, imparáveis, tornam os gestos mais doces.
As carícias envolvem e fazem vibrar os corpos que se desejam.
E dois, em um se transformam.


E o poema, feito êxtase, ali está vivo e vivido

Helena Domingues in Orion

domingo, 20 de maio de 2007

O Pássaro da Cabeça

Pintura de Youji Takeshige

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.


(Poema de Manuel António Pina
in "Carta a um jovem antes de ser Poeta")

sábado, 12 de maio de 2007

O Amor e o Tempo


Tomas del Amo

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»

(António Feijó in "Sol de Inverno")

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Conto de Fadas

Fotografia de Olga Gouveia


O que te dizer quando nos olhos, como lágrimas se desprende
o que sinto por ti?
O que te escrever quando as palavras estão enfermas de erros
e enganos, e não afastam esta solidão que cresce dentro de mim?
resta-me este silêncio que sei incapaz de me trair, e que colho às mãos
cheias como no verão o jasmim, escrevo-te longas cartas que rasgo
logo a seguir, nados mortos em envelopes azuis por abrir.
um anão de vão de escada sorri, e um mandarim de pau na mão
certifica-se que não adormeci na vida que se projecta diante de mim
na alva parede que se fecha sobre os sonhos da minha infância,
onde outrora pintei um sol amarelo graffiti confiante e sorridente.
refugiam-se nas tocas os coelhos, bolas de pêlo saltitante de nariz fremente
e hesitante, como se a cada instante fosse necessário abalar a fugir.
provavelmente terão a sua razão, e pelo sim pelo não
telefono ao tubarão que me guia pela noite, num deslizar de águas mansas
tépidas e límpidas como cristal, recolho então as estrelas
e os cristais que Neptuno me oferece
e sou feliz enquanto não amanhece
e o despertador me atira da cama com um grito de urgência
e sou eu de novo adulto responsável
incapaz de verter uma lágrima ou de soltar um sentimento que não seja
picar o ponto e bater num teclado qwert que diante de mim boceja.
e ainda há quem não veja, que a felicidade se esconde por detrás de um
funcionalismo público que de um prédio dos subúrbios espreita
e que o poder de compra se vende em quiosques, estampado em revistas
de fundo cor de rosa, recheados com conselhos de uma madame de Cascais
ou na tinta suja dos jornais em letras gordas e garrafais. e os lustrosos
senhores do capital dizem-nos que temos de viver mal
para que a engrenagem não emperre, e a vida avança por entre prateleiras
de hipermercado devidamente embalada e pronta a consumir, que o tempo
escasseia e é preciso produzir, sempre a sorrir, sempre satisfeito
que se o humano não é perfeito, as máquinas inventaram-se para o corrigir.
atribuo-te um número binário, um cálculo matemático e hermético
para aferir o quanto gosto de ti, mas o sistema encravou e é preciso
reiniciar para prosseguir, salva-se o que se pode e digo-te baixinho:
amo-te princesa dos contos de fadas da minha infância
e de armadura reluzente armo-me com a espada do rei Artur
e vou caçar dragões para me distrair, da doença do mundo
que consiste em não saber sonhar ou sequer sorrir.
Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar (Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

domingo, 6 de maio de 2007

No silêncio da terra ...

Óleo de Eric Drooker

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no intervalo aberto. Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.


o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.
(António Ramos Rosa in "A Pedra Nua"-1972)