segunda-feira, 9 de julho de 2007

Doce Surpresa...

O mundo virtual oferece-nos por vezes, momentos únicos de afabilidade e carinho, através de pessoas que apesar de não conhecerem pessoalmente, nos dedicam gestos, como o que aqui partilho

Pintura de Delphin Enjorlas

A uma amiga que seja.
És o afago profundo
Limpidez e terapia
A confidência ainda
No desespero do mundo.
Teus cabelos têm valia
De uma noitada linda
Com maravilhante magia
De luar fecundo.

Ah dulcíssima loucura
De sonetos vinicianos!
Em teu ar de candura
Moldura jura de planos
Assim de alheias dores
Lavassem-se dos desenganos
E em pacificantes cores
Neste ínterim
Amassem, SIM!


Poema de Freddy Diblu

domingo, 1 de julho de 2007

Musicalidade

 Pintura de Jan Thompson Dicks

Sob a musicalidade de teus dedos
percorrendo meu corpo,
sôfrego de ti....
transportas-me ao sonho,
revivendo momentos
de poesia sem fim.

Transporta-me ao sonho,
acolhe-me nos teus braços
numa valsa sagrada
que é o momento
em que me vejo
dentro de ti.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Vida

Pintura de Wilson Henry Irvine


Nos meus olhos sinto o oceano desaguar lentamente no teu abraço e na minha pele depositas um longo beijo que abrasa o meu corpo, serenando o meu espírito repleto de ternura e no teu corpo me enlaço.
Desnudas o sonho da palavra que nada diz e o silêncio quebra-se, como rocha que não sente ternura, porque

no cruzamento
da vida
tantas vezes
vivida
alegre
doce
outras,
amarga e triste,
mas
aberta à alegria
do contentamento
em que a chuva
não apaga
as marcas
deixadas
numa vida
sentida
ao sabor
do destino
que não somos nós
que o criamos,
mas ajudamos
a existir.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Porque o descanso é preciso…

Imagem de autor desconhecido

“Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
Todos os pensamentos de amor serão os seus pensamentos.”
(René Char in “A Religião do Girassol –pág. 31)




Até breve...

terça-feira, 5 de junho de 2007

se a palavra dissesse exactamente o que diz

Passeava calmamente por entre as alamedas da blogosfera quando, ao entrar aqui deixei-me fascinar pelo conjunto que se me deparou. Mesmo sem "licença" da dona da casa, resolvi partilhar convosco este emocionante momento…
São assim, os caminhos intermináveis da blogosfera…
Imagem de Maria do C'eu Costa

Se a palavra dissesse exactamente o que diz
nunca atingiria a cintilante transparência
que tem a frescura do que é novo e do que é frágil
Se ela tem o suave alvoroço do primeiro dia

é porque venceu a preguiça das raízes
e despertou no centro da argila
não para ser rosa pedra ou ave
mas para acariciar a distância ou um incerto lábio

Nunca poderá ser corola de ouro ou ânfora de lua
porque é frágil e oscila como uma asa de mercúrio
Mas a sua sede traça um ingénuo caminho
Ao ritmo de uma harpa de veias sussurrantes



(Poema de António Ramos Rosa)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Iniciação

Imagem de Hory Ma

Há os que vêm de longe, trazendo nas mãos
e nas pálpebras o mar exilado.

À porta descalçam as sandálias
gastas de inventariar o pó,
e antes que entrem na casa do poema
coroam-se de silêncio e silvas.

Percorrem depois longamente as paredes
fechando janelas onde não existem,
e rente à cegueira vão recolhendo as aves
que tropeçam na luz dos dedos.

Grandes rios negros atravessam a noite e os pulsos,
e as palavras doem nas unhas como espinhos acesos.

E há os outros, os que rondaram desde sempre
a casa sem se atreverem a entrar.

Falo dos que percorrem a lâmina do poema
medindo a eternidade pela distância
que vai dos lábios ao nome.

Dos que bebem as árvores entornadas nas palavras,
e esperam que dos gestos caiam os últimos deuses
destronados pelo rasgar dos frutos.

Falo dos que vêm do lado da loucura
e trazem na boca os olhos
com que quiseram acender todos os fogos.

Dos que viajam a cinza e o assombro,
demorando-se em tudo o que mais ninguém tropeça.

("Iniciação ao Remorso" de Jorge Melícias"A Mar Arte", 1998)

domingo, 27 de maio de 2007

ÊXTASE POÉTICO

Pintura de Gustav Klimt

Este texto é um levantar de véus…
Ando para escrevê-lo há muito…
Contudo, foi-se apoderando de mim um medo imenso de não ser capaz de transmitir o que sinto, de não saber mostrar que fazer amor pode ser um acto poético, tal como o êxtase pode ser um poema. Isto, porque quando se escreve, não é bem o que se faz mas sim o que se sente e se sonha.
Será que as palavras me vão sair fluentes?
(Será que o meu olhar vai alcançar o teu?)
(Será que as minhas mãos vão tocar as tuas, te vão tocar?)
As palavras serão apenas um meio para que possa ser escutado o que o meu olhar diz.
Porque é com o olhar que a grande festa começa.
Olhar, é já uma manifestação poética, como o são todas as manifestações da vida, sendo que a poesia é uma forma de estar vivo, e não apenas um aglomerado de símbolos numa folha de um livro ou de um pequeno caderno.
Olhar é penetrar o outro, é estabelecer essa corrente de conhecimento interior e vívido que o outro deseja deixar que se conheça, que o outro deixa que seja conhecido. Do qual, ambos desejam usufruir.
O olhar transforma-se e transforma-nos. As mãos encontram-se, passando a essência de um para o outro, desenhando-a em desenhos ousados nos corpos dos dois amantes.
À arte poética junta-se a pintura. E os corpos tornam-se telas impressionistas, difusas mas plenas de cor e de emoção.
Tudo resplandece à nossa volta.
Sonha-se a música.
Ela sai de nós em cada sussurro de amor, em cada gemido de prazer. E, em crescendo, acompanha a dança de dois corpos que se unem e se completam.
As mãos, imparáveis, tornam os gestos mais doces.
As carícias envolvem e fazem vibrar os corpos que se desejam.
E dois, em um se transformam.


E o poema, feito êxtase, ali está vivo e vivido

Helena Domingues in Orion

domingo, 20 de maio de 2007

O Pássaro da Cabeça

Pintura de Youji Takeshige

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.


(Poema de Manuel António Pina
in "Carta a um jovem antes de ser Poeta")

sábado, 12 de maio de 2007

O Amor e o Tempo


Tomas del Amo

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»

(António Feijó in "Sol de Inverno")

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Conto de Fadas

Fotografia de Olga Gouveia


O que te dizer quando nos olhos, como lágrimas se desprende
o que sinto por ti?
O que te escrever quando as palavras estão enfermas de erros
e enganos, e não afastam esta solidão que cresce dentro de mim?
resta-me este silêncio que sei incapaz de me trair, e que colho às mãos
cheias como no verão o jasmim, escrevo-te longas cartas que rasgo
logo a seguir, nados mortos em envelopes azuis por abrir.
um anão de vão de escada sorri, e um mandarim de pau na mão
certifica-se que não adormeci na vida que se projecta diante de mim
na alva parede que se fecha sobre os sonhos da minha infância,
onde outrora pintei um sol amarelo graffiti confiante e sorridente.
refugiam-se nas tocas os coelhos, bolas de pêlo saltitante de nariz fremente
e hesitante, como se a cada instante fosse necessário abalar a fugir.
provavelmente terão a sua razão, e pelo sim pelo não
telefono ao tubarão que me guia pela noite, num deslizar de águas mansas
tépidas e límpidas como cristal, recolho então as estrelas
e os cristais que Neptuno me oferece
e sou feliz enquanto não amanhece
e o despertador me atira da cama com um grito de urgência
e sou eu de novo adulto responsável
incapaz de verter uma lágrima ou de soltar um sentimento que não seja
picar o ponto e bater num teclado qwert que diante de mim boceja.
e ainda há quem não veja, que a felicidade se esconde por detrás de um
funcionalismo público que de um prédio dos subúrbios espreita
e que o poder de compra se vende em quiosques, estampado em revistas
de fundo cor de rosa, recheados com conselhos de uma madame de Cascais
ou na tinta suja dos jornais em letras gordas e garrafais. e os lustrosos
senhores do capital dizem-nos que temos de viver mal
para que a engrenagem não emperre, e a vida avança por entre prateleiras
de hipermercado devidamente embalada e pronta a consumir, que o tempo
escasseia e é preciso produzir, sempre a sorrir, sempre satisfeito
que se o humano não é perfeito, as máquinas inventaram-se para o corrigir.
atribuo-te um número binário, um cálculo matemático e hermético
para aferir o quanto gosto de ti, mas o sistema encravou e é preciso
reiniciar para prosseguir, salva-se o que se pode e digo-te baixinho:
amo-te princesa dos contos de fadas da minha infância
e de armadura reluzente armo-me com a espada do rei Artur
e vou caçar dragões para me distrair, da doença do mundo
que consiste em não saber sonhar ou sequer sorrir.
Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar (Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

domingo, 6 de maio de 2007

No silêncio da terra ...

Óleo de Eric Drooker

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no intervalo aberto. Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.


o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.
(António Ramos Rosa in "A Pedra Nua"-1972)

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A quietude de um abraço

Antonio Canova aqui

Há falsos profetas a levante do destino.
É preciso fechar por dentro
as águas furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos,
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço:
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões.

Poema de
Graça Pires

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Prémio Award Thinking Blogger

Só o carinho e a doçura da Lena para me tirar do período sabático a que voluntariamente me devotei e com este gesto demonstrar-lhe a amizade e o respeito que por ela tenho ao aceitar para este blogue, o Award Thinking Blogger, que desde já agradeço.
A aceitação implica que deverei indicar cinco outros blogues, sendo esta, a parte mais difícil, tendo em conta o grande carinho que me liga a inúmeros blogues.
Por ordem alfabética aqui estão…

Annie Hall
Pelo seu amor à natureza, bem patente no Outsider


Carlos Romão-A Cidade Surpreendente
Surpreendente é a sua página…


Isabel Filipe
Pela irreverência da sua arte


Licínia Quitério
O mistério das suas palavras decifráveis


Yardbird
Um passarinho que voa nos corações…

E como as regras são para se infrigir… deixo uma menção muito especial à
Wakewinha
Uma lutadora…


Fotografia da Annie Hall


Desenha em ti
cores vivas
de felicidade
mesmo que adiada
mesmo que não consentida
não deixes que o negro
tome conta de ti.

Exala o perfume
das flores
o aroma dos frutos
e pinta a Vida
de mil cores
mil pensamentos
felizes
audazes
coloridos.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Os olhos da alma...

Um dia destes as janelas abrir-se-ão de novo...
1000Imagens

sábado, 14 de abril de 2007

AMIZADE


A imagem e o poema que vos apresento foram recebidos por email.
Resolvi partilhá-los…


Penso em ti: sinto em mim a nostalgia
desse abraço que fica tão distante
e, mesmo assim, nos liga dia-a-dia
e nos aproxima a todo o instante.

Penso em ti: sinto em mim essa tremura
que se espalha ao longo dos meus braços
e te envolve comigo na ternura
com que te aperto a mim, em mil abraços.

Penso em ti: e respiro bem melhor
por saber que te tenho ao meu lado
e que o ar que respiro é o calor
da aragem da amizade em duplicado.

Penso em ti: e pensar é já viver
contigo residindo no meu peito
aprendendo, afinal, a conviver
contigo, tal qual és, desse teu jeito.

E sinto que afinal valeu a pena
sentir como tu sentes a vontade
de viver assim, de forma plena,
este sabor intenso da Amizade.

(
Fernando Peixoto in "Penso em Ti")

domingo, 1 de abril de 2007

Primavera...

Pintura de Joan Beltrán Bofill

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos subtis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto Inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardénias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efémera.


(Texto extraído do livro "Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.)


Ouvir o texto na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sábado, 17 de março de 2007

A magnólia

Pintura de Romy in Global Gallery


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


Luiza Neto Jorge 
in,“O seu a seu tempo”, 
Assírio & Alvim
Poesia-2001

segunda-feira, 5 de março de 2007

Distância...


O poema que vos apresento foi deixado anonimamente num comentário.
Resolvi partilhá-lo


Óleo de Nydia Lozano

Saber que a distância é só um detalhe,
Que de alguma forma tu estás comigo
E que até meus sonhos podem ser verdade.

Encanta-me imaginar-me tua,
Fechar os olhos e sentir-me nos teus braços,
Todas as noites me banhar de lua
E aquecer-me com os teus abraços.

Encanta-me saber que existes,
Que o amor também te aconteceu.
E que agora já não sou tão triste
Porque não é amor somente meu.

Mesmo distantes e sendo apenas sonho,
Quero vivê-lo, não importa quanto!
Nos braços desse sonho eu me abandono
Para gritar ao mundo que apenas amo.

Poema de Isabelle Mara

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

O improviso de viver

Pintura de Arthur Frederick Bridgman


Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo
o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência dos momentos
em que a madrugada se comove.

(Poema de Graça Pires)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A ti dedico...

...porque todas as rosas têm espinhos...
Pintura de Henry Ryland


Abro a rosa com pétalas viradas para dentro
de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
a música que corre ao longo do caule, num êxtase
de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
sei que habito o próprio centro do efémero,
enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
para dentro da rosa, empurrando o meu ser
para fora do centro, corre nas suas veias,
como seiva de fogo, até fazer com que outros
botões nasçam, para que me suguem o ser, até
entre mim e a rosa não haver senão a frágil
fronteira de um espinho, em que me pico,
sentindo que a gota de sangue do meu dedo
podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
que a deseja, no instante efémero do amor.

"Rosa com espinho"-

Poema de Nuno Júdice
in "As coisas mais simples"