segunda-feira, 5 de março de 2007

Distância...


O poema que vos apresento foi deixado anonimamente num comentário.
Resolvi partilhá-lo


Óleo de Nydia Lozano

Saber que a distância é só um detalhe,
Que de alguma forma tu estás comigo
E que até meus sonhos podem ser verdade.

Encanta-me imaginar-me tua,
Fechar os olhos e sentir-me nos teus braços,
Todas as noites me banhar de lua
E aquecer-me com os teus abraços.

Encanta-me saber que existes,
Que o amor também te aconteceu.
E que agora já não sou tão triste
Porque não é amor somente meu.

Mesmo distantes e sendo apenas sonho,
Quero vivê-lo, não importa quanto!
Nos braços desse sonho eu me abandono
Para gritar ao mundo que apenas amo.

Poema de Isabelle Mara

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

O improviso de viver

Pintura de Arthur Frederick Bridgman


Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo
o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência dos momentos
em que a madrugada se comove.

(Poema de Graça Pires)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A ti dedico...

...porque todas as rosas têm espinhos...
Pintura de Henry Ryland


Abro a rosa com pétalas viradas para dentro
de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
a música que corre ao longo do caule, num êxtase
de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
sei que habito o próprio centro do efémero,
enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
para dentro da rosa, empurrando o meu ser
para fora do centro, corre nas suas veias,
como seiva de fogo, até fazer com que outros
botões nasçam, para que me suguem o ser, até
entre mim e a rosa não haver senão a frágil
fronteira de um espinho, em que me pico,
sentindo que a gota de sangue do meu dedo
podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
que a deseja, no instante efémero do amor.

"Rosa com espinho"-

Poema de Nuno Júdice
in "As coisas mais simples"

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Sonho de uma Noite de Inverno...

Não há histórias de amor, sem dramas ocultos, dizia-me na sua voz doce minha Avó…
Imagem de Claude Théberge

Acordei sobressaltada, num cenário surreal, com o estrondo atrás de mim… personagens saídas de uma peça de Shakespeare, volteavam em meu redor…num panorama teatral, alheios à minha presença.
Enquanto “Flor-de-ervilha” coça a cabeça de “Bottom”, os “Elfos” percorrem o bosque perfumado… e ao longe, surgindo do nada, vejo uma sombra que me sorri, estendendo-me a mão. Mas…eu não a alcanço.
Oberon” e “Robim” discutem…e a figura começa a delinear-se… mas agora com um sorriso triste, por a não ter reconhecido…
À minha volta os diálogos continuam, como um sonho…"Oberon" e "Titânia" valseiam em palavras incompreensíveis… um vulto atravessa o denso nevoeiro e num gesto rápido empurra a figura que se começa a desvanecer ao meu olhar.
Oh dor profunda, uma lágrima incontida rasga a pele do meu rosto, enquanto a figura luta para se libertar e perceber o que lhe está a acontecer, enquanto a sua Voz eleva-se, para que eu a ouça…
Mas as personagens, como num sonho, abafam sua voz, tornando-a inaudível; mais que ao meu ouvido, uma voz chega-me ao coração, um dos novos personagens eleva o tom e virado para mim, faz esta alocução:

"Teseu" — "Tanto mais generosos haveremos de ser, quando por nada os aplaudirmos. Prazer nos causarão seus próprios erros. Quando o pobre dever nada consegue, busca o nobre respeito unicamente a intenção, não o mérito. A minha vinda, sábios eminentes determinaram me saudar com longos discursos estudados. Tive o ensejo de os ver tartamudear e ficar pálidos, interromper uma sentença em meio, o nervoso afogar-lhes a palavra já tão exercitada, até que mudos se tornaram, sem dar-me as boas-vindas. Podeis crer-me, querida: do silêncio tirei a saudação, e li na própria modéstia da lealdade temerosa mais do que falar pode a língua fácil e a eloquência audaciosa e petulante. Fala mais o dever, com língua atada, muito mais, quando é mudo e não diz nada." (Citação)

Repentinamente tudo se evapora à minha volta: O séquito de "Oberon" e "Titânia", de "Teseu" e "Hipólita"… e o bosque transforma-se na minha praia favorita, onde uma chuva miudinha não impede o abraço que recebo... de quem? Da figura dos meus sonhos…enquanto como num filme animado ouço uma voz dizer
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas,
só as de verão.
No fundo isso não tem importância.
O que interessa mesmo
não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares,
em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.
(Shakespeare)
Mas… que sonho é este? Onde estou?De repente, um frio percorre-me e completamente aninhada no meu cadeirão preferido, acordo deste sonho, ou terá sido mesmo um pesadelo?
Cai-me do livro um pequeno postal e, quando o apanho para o colocar de novo a marcar a página que não li, reparo naquilo que lá está escrito:

Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente
como nós, e que embora distante, está perto
em espírito, eis o que faz da Terra um
jardim habitado.
(Goethe)

sábado, 27 de janeiro de 2007

Estar em paz...

Helene  Beland
Um dia destes alguém perguntou: 
- Tu estás feliz? - Assim, sem mais nem menos, no meio de uma conversa, que estava a tornar-se numa lenga-lenga.
Olhei para as pontas dos meus dedos e, instintivamente, comecei a enrolá-los nos caracóis do meu cabelo.
- Estou em paz
Sim, é verdade.
Enquanto estar feliz, é como estar-se apaixonada, pensa-se que se pode tudo e, tudo ao nosso redor está definitivamente certo, em harmonia com nossos planos, mas lá bem no fundo, existe alguma coisa que diz, que isso pode não ser eterno... qualquer coisa fora do círculo harmonioso do nosso sentir, pode acontecer e a infelicidade bater no nosso coração num instante.
Paz é diferente.
Certas coisas manifestam-se por si só... Só nós as conhecemos, só nós as sentimos...
E mais importante, sabemos que mesmo nos momentos mais infelizes, nos momentos mais críticos, o saldo pode ser positivo.
Tudo muda.
Até os nossos sentimentos e a visão que temos deles.
Enquanto a felicidade, pode ser apenas um instante, a paz pode ser duradoura.
– Que pena... queria, apesar de tudo, que fosses feliz.
Olhei através da janela e sorri.

Nem todos estão prontos para entender a diferença…



Original de 2005


sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Não adormeças...

Imagem Google

Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

(Maria do Rosário Pedreira
in "A casa e os cheiros dos Livros")

sábado, 13 de janeiro de 2007

Dança de Palavras...

Imagem de Isabel Filipe
Não mais a ti direi que meus olhos estão tristes.
Que as palavras abafam na penumbra do meu peito.
Palavras gastas de tempo de memórias, ilusões perdidas de mundos que se foram.
Não mais a ti direi que o sentido é sentido, que o abraço é viver no sangue, a chama da saudade…
Que todas as marés que percorri em palavras, trazem a odisseia de quem as viveu.
E como dizia o poeta “… gastam-se as palavras…” mas não se gasta o íntimo pensamento, partilhado unicamente a duas mãos, em danças de luas, que não se repetem.
Bailam as folhas, bailam lentamente…
Em céus azuis de sonhos sofridos, de esperanças renascidas de sorrisos em meu rosto…
Silêncio...estou sozinha...eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la...
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!
...e as palavras correm como vento.
...O vento atrai tempestades, esse vento da noite, que derruba estrelas, vento que gela por vezes o meu corpo, vento de ira, vento que transforma um pequeno grão de areia, em pedra dura... vento que sempre volta, para lembrar a saudade e avivar a dor...vento que enlouquece a tempestade que se adivinha, nas ondas gigantescas deste mar que é a Vida.
Na dança...soltam-se lembranças….
...viajei no tempo das minhas memórias. Não que tenha saudades desses tempos. Nada disso. Mas voltar ao passado, lembrar amores e desamores, fortalece o meu espírito. Sempre gostei de assumir, perante mim própria, tudo aquilo que a Vida me dá. De bom e de mau. Nem tudo foram rosas, mas nem tudo foram espinhos. Já viajei em águas revoltas, já rompi madrugadas orvalhadas de lágrimas e suspiros. Mas também já vi o sol nascer, de sorriso rasgado, corpo molhado de prazer. Fui ao fundo das minhas memórias, sorri e voltei.
Hoje - estou feliz!

Diluem-se pensamentos…
A ti me dou em forma de palavras.
Para que nos teus sentires despertes os meus.
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos...
Um poema...
Este poema mágico que sentimos dentro de nós...
As tuas palavras com que saboreias a minha alma...
Lavam-me a alma…
E se há uma estrela, além, marcando-nos o destino,
é esforço vão fugir ao perigo dum momento!
E se uma folha move - foi em pensamento -
Sacudida por Deus.
Não é livre o caminho...


...de quem as proferiu…

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A quem senão a ti direi...

Imagem de Mark Naksam

A quem senão a ti direi como estou triste?
Mas se a tristeza vem de tu não estares,
como ta direi, como hei-de juntar
o que me está doendo ao vento
que não bate mais à tua porta?

Eu sei que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.
Não haver palavras és tu a desaparecer.

(Poema de Bernardo Pinto de Almeida in “Hotel Spleen”)

sábado, 6 de janeiro de 2007

Significante

Golden Raindrops


Reside no meu corpo-sacrário
Toda variedade de pensamento
Ah, quem dera! Fosse um rosário
Em cada conta todo discernimento

Reside no meu peito em terço
Todo pensamento em cruz
Ah, quem dera! Fosse uma palavra
Em cada trave todo conhecimento

No meu corpo-sacrário há vozes
Que choram e lamentam
As dores do desconhecimento

No meu peito em terço
Há signos sem as palavras
Da linguagem em puro tormento

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Sonhos

Pintura de Alexandru Darida

Alegra-me a paisagem em beleza,
vendo sonhos a elevarem-se em oração
parecendo que a própria natureza
tem como nós, um coração.

As tardes são de límpida tranquilidade
há doçura e paz na solidão;
recordações plenas de saudade
transformadas em sonho e ilusão.

Bailam as folhas, bailam lentamente
voando para longe a renascerem,
levadas pela força da aragem.

O céu transporta-nos ao poente,
chegando o pôr-do-sol ao anoitecer
e as sombras adormecem na paisagem.


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Existem

Pintura de Charlotte Atkinson


Existem momentos
que parecem um dia sem noite
ou noite sem dia.
São momentos serenos em que o tempo sorri
e a alma implora.

Porque, nesses momentos,
nascem dentro de nós
gestos carinhosos,
o calor de uma atenção,
uma pequena afirmação
"estou aqui"
à alma que precisa de um refúgio
e (re) conhecer a mão que a afaga,
mesmo que não a possa ver.

Nessa comunhão,
por vezes silenciosa,
temos a certeza de não estarmos sós.

Porque o silêncio
não gosta de ser interrompido,
excepto pelos sons da natureza
ou ainda por aquele momento mágico
que não nos é indiferente.




FELIZ ANO NOVO



Ouvir o poema na voz de 
Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

domingo, 24 de dezembro de 2006

Um Poema... que vos deixo...

Retalhos de Ternura, pintura de Nela Vicente


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


(Miguel Torga in "Diário XIII")


Feliz Natal

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Um caminho de palavras...

Pintura de Susan Rios

Sem dizer fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


António Ramos Rosa 
in ,"De Sobre o Rosto da Terra" - (1961)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Natal...

Pintura de William Merritt Chase


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras, guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos.
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infindos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. Nostalgia; nostalgia.
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.

Natal, natal diziam. E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo:
 
nascimento de poesia.

Poema de Manuel Alegre 
in,"Coisa Amar", (1976)


quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Horizontes infinitos

Poema dedicado a esta pintura de Nela Vicente, a pedido da própria...

Vejo nos teus olhos
a tentação do mar
- horizontes infinitos
onde vogam tormentas –
erguem-se clarões
de sonho e de luar
em carícias subtis,
em harmonias lentas.

E não sei bem porquê,
sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores
nesta viagem de retorno
e de espera
sentindo, sem cessar,

o perfume das flores.

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Se eu pudesse...

Imagem de autor desconhecido


Se eu pudesse atingir
a quietude das coisas simples,
a serenidade das harmonias mortas,
e dormitar na inconsciência
de tudo quanto não existe!

Se eu pudesse banir a melancolia,
porque me atormenta,
me afunda,
me reduz ao desespero de não saber viver.

Se eu pudesse perseverar em ser alegre,
fruir confiança
e reter na minha alma
somente os momentos divinos de prazer.

Viver só por viver.
Nada querer além da vida,
não devassar meu eu,
e embalar-me tranquilamente
na esperança
dos meus sonhos.



Ah! Se eu pudesse adormecer!...

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
(memórias...)

domingo, 19 de novembro de 2006

Volúpia

Imagem de autor desconhecido

Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu…sorveu o mel dos nossos beijos!


(Poema de Judith Teixeira in ,
“ Madrugada” 1925)

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar 
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Um Sorriso que Passa…

Imagem de autor desconhecido

Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!
– O que tu és não me interessa, crê.

Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…

Não sei a cor dos teus cabelos…
conheço a tua boca apenas quando ri…

Não voltes mais!

Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!

(Judith Teixeira in Inverno (1925)

sábado, 11 de novembro de 2006

Das Magnólias...

Óleo de Jacqueline Nibelle

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão


(Daniel Faria, in Dos Líquidos)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Fantasia

Óleo de Fulvio De Marinis

Embalo-me
 em
palavras 

segredadas

Doce quimera 
alada
na justa medida
da minha fantasia

Cerca-me 
enreda-me
entre 


ponto
e a 

vírgula

Dá-me 

momentos
de puro deleite
na fantasia
do teu sonhar.