sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Não adormeças...

Imagem Google

Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

(Maria do Rosário Pedreira
in "A casa e os cheiros dos Livros")

sábado, 13 de janeiro de 2007

Dança de Palavras...

Imagem de Isabel Filipe
Não mais a ti direi que meus olhos estão tristes.
Que as palavras abafam na penumbra do meu peito.
Palavras gastas de tempo de memórias, ilusões perdidas de mundos que se foram.
Não mais a ti direi que o sentido é sentido, que o abraço é viver no sangue, a chama da saudade…
Que todas as marés que percorri em palavras, trazem a odisseia de quem as viveu.
E como dizia o poeta “… gastam-se as palavras…” mas não se gasta o íntimo pensamento, partilhado unicamente a duas mãos, em danças de luas, que não se repetem.
Bailam as folhas, bailam lentamente…
Em céus azuis de sonhos sofridos, de esperanças renascidas de sorrisos em meu rosto…
Silêncio...estou sozinha...eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la...
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!
...e as palavras correm como vento.
...O vento atrai tempestades, esse vento da noite, que derruba estrelas, vento que gela por vezes o meu corpo, vento de ira, vento que transforma um pequeno grão de areia, em pedra dura... vento que sempre volta, para lembrar a saudade e avivar a dor...vento que enlouquece a tempestade que se adivinha, nas ondas gigantescas deste mar que é a Vida.
Na dança...soltam-se lembranças….
...viajei no tempo das minhas memórias. Não que tenha saudades desses tempos. Nada disso. Mas voltar ao passado, lembrar amores e desamores, fortalece o meu espírito. Sempre gostei de assumir, perante mim própria, tudo aquilo que a Vida me dá. De bom e de mau. Nem tudo foram rosas, mas nem tudo foram espinhos. Já viajei em águas revoltas, já rompi madrugadas orvalhadas de lágrimas e suspiros. Mas também já vi o sol nascer, de sorriso rasgado, corpo molhado de prazer. Fui ao fundo das minhas memórias, sorri e voltei.
Hoje - estou feliz!

Diluem-se pensamentos…
A ti me dou em forma de palavras.
Para que nos teus sentires despertes os meus.
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos...
Um poema...
Este poema mágico que sentimos dentro de nós...
As tuas palavras com que saboreias a minha alma...
Lavam-me a alma…
E se há uma estrela, além, marcando-nos o destino,
é esforço vão fugir ao perigo dum momento!
E se uma folha move - foi em pensamento -
Sacudida por Deus.
Não é livre o caminho...


...de quem as proferiu…

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A quem senão a ti direi...

Imagem de Mark Naksam

A quem senão a ti direi como estou triste?
Mas se a tristeza vem de tu não estares,
como ta direi, como hei-de juntar
o que me está doendo ao vento
que não bate mais à tua porta?

Eu sei que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.
Não haver palavras és tu a desaparecer.

(Poema de Bernardo Pinto de Almeida in “Hotel Spleen”)

sábado, 6 de janeiro de 2007

Significante

Golden Raindrops


Reside no meu corpo-sacrário
Toda variedade de pensamento
Ah, quem dera! Fosse um rosário
Em cada conta todo discernimento

Reside no meu peito em terço
Todo pensamento em cruz
Ah, quem dera! Fosse uma palavra
Em cada trave todo conhecimento

No meu corpo-sacrário há vozes
Que choram e lamentam
As dores do desconhecimento

No meu peito em terço
Há signos sem as palavras
Da linguagem em puro tormento

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Sonhos

Pintura de Alexandru Darida

Alegra-me a paisagem em beleza,
vendo sonhos a elevarem-se em oração
parecendo que a própria natureza
tem como nós, um coração.

As tardes são de límpida tranquilidade
há doçura e paz na solidão;
recordações plenas de saudade
transformadas em sonho e ilusão.

Bailam as folhas, bailam lentamente
voando para longe a renascerem,
levadas pela força da aragem.

O céu transporta-nos ao poente,
chegando o pôr-do-sol ao anoitecer
e as sombras adormecem na paisagem.


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Existem

Pintura de Charlotte Atkinson


Existem momentos
que parecem um dia sem noite
ou noite sem dia.
São momentos serenos em que o tempo sorri
e a alma implora.

Porque, nesses momentos,
nascem dentro de nós
gestos carinhosos,
o calor de uma atenção,
uma pequena afirmação
"estou aqui"
à alma que precisa de um refúgio
e (re) conhecer a mão que a afaga,
mesmo que não a possa ver.

Nessa comunhão,
por vezes silenciosa,
temos a certeza de não estarmos sós.

Porque o silêncio
não gosta de ser interrompido,
excepto pelos sons da natureza
ou ainda por aquele momento mágico
que não nos é indiferente.




FELIZ ANO NOVO



Ouvir o poema na voz de 
Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

domingo, 24 de dezembro de 2006

Um Poema... que vos deixo...

Retalhos de Ternura, pintura de Nela Vicente


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


(Miguel Torga in "Diário XIII")


Feliz Natal

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Um caminho de palavras...

Pintura de Susan Rios

Sem dizer fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


António Ramos Rosa 
in ,"De Sobre o Rosto da Terra" - (1961)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Natal...

Pintura de William Merritt Chase


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras, guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos.
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infindos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. Nostalgia; nostalgia.
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.

Natal, natal diziam. E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo:
 
nascimento de poesia.

Poema de Manuel Alegre 
in,"Coisa Amar", (1976)


quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Horizontes infinitos

Poema dedicado a esta pintura de Nela Vicente, a pedido da própria...

Vejo nos teus olhos
a tentação do mar
- horizontes infinitos
onde vogam tormentas –
erguem-se clarões
de sonho e de luar
em carícias subtis,
em harmonias lentas.

E não sei bem porquê,
sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores
nesta viagem de retorno
e de espera
sentindo, sem cessar,

o perfume das flores.

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Se eu pudesse...

Imagem de autor desconhecido


Se eu pudesse atingir
a quietude das coisas simples,
a serenidade das harmonias mortas,
e dormitar na inconsciência
de tudo quanto não existe!

Se eu pudesse banir a melancolia,
porque me atormenta,
me afunda,
me reduz ao desespero de não saber viver.

Se eu pudesse perseverar em ser alegre,
fruir confiança
e reter na minha alma
somente os momentos divinos de prazer.

Viver só por viver.
Nada querer além da vida,
não devassar meu eu,
e embalar-me tranquilamente
na esperança
dos meus sonhos.



Ah! Se eu pudesse adormecer!...

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
(memórias...)

domingo, 19 de novembro de 2006

Volúpia

Imagem de autor desconhecido

Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu…sorveu o mel dos nossos beijos!


(Poema de Judith Teixeira in ,
“ Madrugada” 1925)

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar 
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Um Sorriso que Passa…

Imagem de autor desconhecido

Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!
– O que tu és não me interessa, crê.

Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…

Não sei a cor dos teus cabelos…
conheço a tua boca apenas quando ri…

Não voltes mais!

Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!

(Judith Teixeira in Inverno (1925)

sábado, 11 de novembro de 2006

Das Magnólias...

Óleo de Jacqueline Nibelle

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão


(Daniel Faria, in Dos Líquidos)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Fantasia

Óleo de Fulvio De Marinis

Embalo-me
 em
palavras 

segredadas

Doce quimera 
alada
na justa medida
da minha fantasia

Cerca-me 
enreda-me
entre 


ponto
e a 

vírgula

Dá-me 

momentos
de puro deleite
na fantasia
do teu sonhar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

…como uma roseira brava.

"Rose Girl" de Howard Schatz

Avancei cautelosa através das dunas. Tinha deixado o carro na estrada e aventurava-me por um caminho reconhecido.

Quantas vezes naquele local, de mãos dadas e corpos suados, tínhamos corrido em direcção ao mar?

Uma música suave fazia-se ouvir, trazida pelo vento.
Fechei os olhos e, de repente, senti a sua presença.
- Não acredito que te encontrei aqui. Não esqueceste este lugar?- Como poderia esquecer? – pensei, ainda incrédula pela sua presença.- Ah…Conheço todos os teus pensamentos. Sabia que um dia virias aqui.A sua voz tinha uma entoação doce enquanto os seus lábios tocavam o meu pescoço.- Não sejas atrevido. Olha que nos podem ver…Mas, sem me importar com o que acabava de dizer, deixava que o seu corpo tomasse conta do meu, e cada beijo enfraquecia a minha vontade de fugir dali.

O silêncio instalou-se para dar lugar às batidas dos nossos corpos, do nosso coração. Nem as gaivotas que voavam em círculos nos quiseram perturbar.

- Foges!? - A sua voz rouca era um lamento...

Numa gargalhada solto os cabelos que caem revoltos nos meus ombros.

Num gesto rápido, retiro a fina peça que me cobria o corpo e atiro-lha, deixando-me ficar de pé aguentando o seu olhar malicioso.

Quando os nossos corpos se uniram num frémito de paixão o grito da gaivota fez-se ouvir.

Como numa roseira brava, floresciam em nós desejos infindáveis e a entrega foi mútua, numa explosão de aromas e cores.


Quanto tempo por nós passou, meu amor,
perto de ti na imensidão do mar!

As rosas mais formosas desfolharam
e levou-as o vento pelo ar.

O meu roseiral de sonho e saudade
entreguei-o à doce claridade
do teu olhar que me ilumina ainda.

Quando corri para o mar, cabelos ao vento,
ia vestida de rosas.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

...pequenas histórias...


Imagem da Luana

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

(Poema de Maria do Rosário Pedreira in "O Canto do Vento nos Ciprestes", 2001)

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Este é o meu Refúgio...

...sintam-se em casa.

Imagem de Stephen J