sábado, 11 de novembro de 2006

Das Magnólias...

Óleo de Jacqueline Nibelle

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão


(Daniel Faria, in Dos Líquidos)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Fantasia

Óleo de Fulvio De Marinis

Embalo-me
 em
palavras 

segredadas

Doce quimera 
alada
na justa medida
da minha fantasia

Cerca-me 
enreda-me
entre 


ponto
e a 

vírgula

Dá-me 

momentos
de puro deleite
na fantasia
do teu sonhar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

…como uma roseira brava.

"Rose Girl" de Howard Schatz

Avancei cautelosa através das dunas. Tinha deixado o carro na estrada e aventurava-me por um caminho reconhecido.

Quantas vezes naquele local, de mãos dadas e corpos suados, tínhamos corrido em direcção ao mar?

Uma música suave fazia-se ouvir, trazida pelo vento.
Fechei os olhos e, de repente, senti a sua presença.
- Não acredito que te encontrei aqui. Não esqueceste este lugar?- Como poderia esquecer? – pensei, ainda incrédula pela sua presença.- Ah…Conheço todos os teus pensamentos. Sabia que um dia virias aqui.A sua voz tinha uma entoação doce enquanto os seus lábios tocavam o meu pescoço.- Não sejas atrevido. Olha que nos podem ver…Mas, sem me importar com o que acabava de dizer, deixava que o seu corpo tomasse conta do meu, e cada beijo enfraquecia a minha vontade de fugir dali.

O silêncio instalou-se para dar lugar às batidas dos nossos corpos, do nosso coração. Nem as gaivotas que voavam em círculos nos quiseram perturbar.

- Foges!? - A sua voz rouca era um lamento...

Numa gargalhada solto os cabelos que caem revoltos nos meus ombros.

Num gesto rápido, retiro a fina peça que me cobria o corpo e atiro-lha, deixando-me ficar de pé aguentando o seu olhar malicioso.

Quando os nossos corpos se uniram num frémito de paixão o grito da gaivota fez-se ouvir.

Como numa roseira brava, floresciam em nós desejos infindáveis e a entrega foi mútua, numa explosão de aromas e cores.


Quanto tempo por nós passou, meu amor,
perto de ti na imensidão do mar!

As rosas mais formosas desfolharam
e levou-as o vento pelo ar.

O meu roseiral de sonho e saudade
entreguei-o à doce claridade
do teu olhar que me ilumina ainda.

Quando corri para o mar, cabelos ao vento,
ia vestida de rosas.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

...pequenas histórias...


Imagem da Luana

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

(Poema de Maria do Rosário Pedreira in "O Canto do Vento nos Ciprestes", 2001)

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Este é o meu Refúgio...

...sintam-se em casa.

Imagem de Stephen J