quinta-feira, 10 de setembro de 2020
sábado, 4 de abril de 2020
VENTO DE PRIMAVERA
Neste cheiro
de maresia
nestas ondas
de prata
neste vento
que rebela
meus cabelos
de rajada.
Areia que o mar
envolve
sob o céu azul
de nuvens
gaivotas ao vento
esvoaçam
neste tempo frio
de chuva.
Serenos
desejo os dias
na leve brisa
das marés
sonhando
com sol abrasador
em tempo de Primavera!
quarta-feira, 11 de março de 2020
Depoimento
sábado, 22 de junho de 2019
Uma canção para ti.
Fechou o livro devagarinho. Não lhe apeteceu largá-lo. Deixou-o no colo em cima da macia manta que lhe cobria as pernas.
Uma lágrima quente rolava-lhe pelo rosto enquanto um sorriso aflorava os seus lábios como se recebesse um beijo.
Reclinou-se para trás sentindo a cabeça bater na cabeceira do maple.
Mil pensamentos filmavam-se no seu interior. Sentiu o calor quente das imagens que a povoavam e o seu sangue ferver como chaleira em lume escaldando.
Amava o amor que lhe tinha dado tanto amor. Amava todo o seu passado como se ama algo que nunca se perderá. Porque será que nada de negativo a invade? Porque será que o amor é tão intenso dentro de si que a não liberta?!
Navega um rumo certo, sabe-o.
Navega de coração aberto em amor por tudo o que lhe foi dado. A calma da noite, como uma bênção, fá-la viajar no sonho e nas memórias.
Despe-se de preconceitos e sorri.
Na sua frente, os retratos da felicidade. Olha-os. Pensa-os.
Um sorriso explode-lhe no coração. Velozmente, corre-lhe nas veias.
O seu olhar brilha como mil estrelas no firmamento.
(Por favor, desligar a música de fundo do blogue)
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Sonhos e Memórias...
No eterno sonho dourado
dos teus olhos
longe de tudo
a madrugada passou
a água esculpe na montanha
rios límpidos e transparentes.
O crepúsculo partilha os teus momentos
e a espera da manhã
colhe as flores do amor
que existe no coração
em suave brisa
que acaricia o sol
e sente
a ternura do
vento.
Post scriptum: Este poema está inserido num texto que escrevi há anos. Ao ouvir esta música, recordei ambos.
Partilho. (por favor, desliguem a música de fundo do blogue para ouvirem o vídeo. Obrigada)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
![]() |
| Autor desconhecido |
Ode aos Natais Esquecidos
Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta
que dava acesso aos mistérios da noite,
daquela noite em particular, por ser a mais terna
de todas as noites que a minha memória
era capaz de guardar, com letras e sons,
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis.
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos,
a lembrança de outras noites e de outros dias,
os brinquedos cansados da solidão dos quartos,
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis.
E todos me diziam que era ainda muito cedo,
porque a meia-noite morava já dentro do sono,
no território dos anjos e dos outros seres alados,
hora inatingível a clamar pela nossa paciência,
meninos hirtos de olhos fixos na claridade
enganadora de uma árvore sem nome.
Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também.
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante
como a tristeza de um fantasma confrontado
com a beleza da vida para sempre perdida.
Deixaram de me dar presentes e de dizer
que era o Menino Jesus que os trazia
para premiar a minha grandeza de alma,
o meu desejo de ser bom para os outros.
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente,
só para não ter de escrever sobre a saudade
que esse tempo fugidio deixou em mim.
A árvore mirrou de frio num canto da sala,
os presentes apodreceram no sótão da casa,
juntamente com os doces da Consoada
que ninguém teve vontade de comer,
nem mesmo os mais gulosos como eu.
Um homem de muita idade bateu-me à porta
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho:
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me.
Abri-o e vi um livro onde se contava
toda a minha vida desde o primeiro Natal
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo.
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore,
à espera que alguém me viesse dizer
que o céu era pródigo em revelações e dádivas.
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse.
Quando Dezembro se aproximar do fim,
lançarei pétalas ao vento como se tentasse
semear o perfume do que fui enquanto acreditei.
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto,
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever.
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses:
foi à sombra deles que nos fizemos homens.
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos
a ternura do meu sorriso de menino
quando a meia-noite soava no relógio da sala
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível.
José Jorge Letria, in "Natal"
terça-feira, 15 de maio de 2018
Vento...
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade
in, Os Amantes sem dinheiro
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quarta-feira, 11 de abril de 2018
Porque de orgulho são tão nus meus versos
SONETO LXXVI
Porque de orgulho são tão nus meus versos,
tão limpos de contraste e mudanças?
Porque, com o tempo, não vão sendo imersos
em novo estilo e estranhas esquivanças?
Porque escrevo eu sempre tão igual ao que era,
mantendo-me fiel ao que inventei,
que cada termo é como se dissera
quanto de mim procede que o gerei?
Que é só de ti, meu doce amor, que escrevo
contigo e Amor aos devaneios basto;
e o meu saber de poeta é este enlevo
de ainda outra vez gastar o que está gasto.
Tal como o Sol é novo cada dia,
assim do Amor eu digo o que dizia.
William Shakespeare
In “Poemas de Amor”,
a págs 62
(Edição Alma Azul)
Imagem Google
quarta-feira, 4 de abril de 2018
AO LONGE OS BARCOS DE FLORES
![]() |
| Salvador Dali |
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
‑ Perdida voz que de entre as mais se exila,
‑ Festões de som dissimulando a hora.
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha, "Clepsidra"
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sexta-feira, 23 de março de 2018
À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Miguel Torga, in “Odes"
Fotografia de Elena Shumilova
sábado, 3 de março de 2018
Horizontes Infinitos
![]() |
Vejo nos teus olhos
a tentação do mar
- horizontes infinitos
onde vogam tormentas –
erguem-se clarões
de sonho e de luar
em carícias subtis,
em harmonias lentas.
E não sei bem porquê,
sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores
nesta viagem de retorno
e de espera
sentindo, sem cessar,
a tentação do mar
- horizontes infinitos
onde vogam tormentas –
erguem-se clarões
de sonho e de luar
em carícias subtis,
em harmonias lentas.
E não sei bem porquê,
sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores
nesta viagem de retorno
e de espera
sentindo, sem cessar,
o perfume das flores.
Pintura de Rosanne Pormeleau
quinta-feira, 31 de março de 2016
Divagações de um dia de Inverno
Estou cansada de Inverno.
Sonho com tempo ameno, roupas leves, mar tranquilo.
Sentar-me em relva verdejante.
Sonho com tempo ameno, roupas leves, mar tranquilo.
Sentar-me em relva verdejante.
Aborrecem-me
dias cinzentos; tardes frias.
Passeios no parque com pressa ou medo de chover.
dias cinzentos; tardes frias.
Passeios no parque com pressa ou medo de chover.
Caminho nas palavras. Ou por entre elas.
Sonho-me. No azul da tarde.
Sempre.
Sonho-me. No azul da tarde.
Sempre.
Divago na sombra da partida.
Vou. Volto?
Vou. Volto?
heart emoticon
"Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa."
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa."
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Dia do Mar"
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Memórias...
“O segredo da sua cútis brilhante e lisa é o seu sorriso”, dizia-me (como me lembro bem disso) a empregada da livraria onde abastecia o apetite voraz da leitura dos meus autores preferidos.
Sorria envergonhada enquanto me despedia e ia pensando que a vida não lhe devia ter sido muito sorridente já que o seu rosto era sulcado em demasia.
Assim se passou o tempo.
Entre mim e ela estabeleceu-se um elo que o sorriso estabelecia.
Ela dizia-me piadas e, sempre envergonhada, não sabia responder-lhe. Sorria.
E continuava a vida de sempre: escrevia.
Escrevia.
Um dia perdi o sorriso.
Foi talvez entre os textos e os poemas.
Entre a descrição da vida e o sonho que permanecia.
As rugas no coração, que já não sorria, cobriam-me os olhos e a cútis já não fulgia. Enrugava.
Vivia a solidão dentro de mim e os meus olhos já não sorriam.
Só a boca, parada, sorria.
E a vida passava. E enrugava dentro de mim.
Só nos textos e nos poemas os meus olhos sorriam.
Era o sonho.
Era o sonho que comandava o que o meu coração escondia.
Mas não sorria.
Porque o sorriso vem da alma e o corpo bem o sabia.
Mas no sonho... no sonho...tudo conseguia.
Entre mim e ela estabeleceu-se um elo que o sorriso estabelecia.
Ela dizia-me piadas e, sempre envergonhada, não sabia responder-lhe. Sorria.
E continuava a vida de sempre: escrevia.
Escrevia.
Um dia perdi o sorriso.
Foi talvez entre os textos e os poemas.
Entre a descrição da vida e o sonho que permanecia.
As rugas no coração, que já não sorria, cobriam-me os olhos e a cútis já não fulgia. Enrugava.
Vivia a solidão dentro de mim e os meus olhos já não sorriam.
Só a boca, parada, sorria.
E a vida passava. E enrugava dentro de mim.
Só nos textos e nos poemas os meus olhos sorriam.
Era o sonho.
Era o sonho que comandava o que o meu coração escondia.
Mas não sorria.
Porque o sorriso vem da alma e o corpo bem o sabia.
Mas no sonho... no sonho...tudo conseguia.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Momentos
O azul mar espraia-se no infinito enquanto a música toca docemente.
O momento é de tranquilidade e apetece que não termine.
Ao longe a vela desfraldada de um barco seguindo a brisa traz memórias marítimas difíceis de esquecer.
O sol brilha em toda a costa e entra janelas adentro aquecendo paredes e o meu coração.
O momento é de tranquilidade e apetece que não termine.
Ao longe a vela desfraldada de um barco seguindo a brisa traz memórias marítimas difíceis de esquecer.
O sol brilha em toda a costa e entra janelas adentro aquecendo paredes e o meu coração.
Com os álamos
Pouco importa o nome:
para nascer
escolhi um rio.
A criança que fui
tem agora a idade
de uma pedra de água.
Enquanto dorme
parte com os pombos bravos.
Quando regressar
virá com os álamos.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Sopro de vida
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| Elena Koupaliantz |
Começar o poema
como quem atravessa areia
escaldante
do deserto
Começar o poema
como quem espera chuva miudinha
no quente meio-dia de Maio
Começar o poema
como quem sente a liberdade dos pássaros
cruzando a imensidão do céu
Começar o poema
como barco sulcando as marés vivas
do oceano
Entre o começar e o finalizar
há um imutável sopro
de vida.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Do que gosto
Gosto de gente que veste sol.
Que lava a cara com gotas de chuva.
Que não mente hipocritamente
e cujo coração alberga uma mente despoluída.
Gosto de gente que ama a palavra
não como arma mas como flor de girassol
que enfrenta e roda o sol. Não com medo.
Mas com a força que a mente traduz no coração.
Gosto de gente que escreve a rir
mas que sílaba a sílaba goteja versos,
lentamente, de alma que não sabe mentir.
Gosto de gente sem preconceitos.
Que diz do que gosta mesmo que seja
o melhor dos outros e o pior de si.
Que não mente hipocritamente
e cujo coração alberga uma mente despoluída.
Gosto de gente que ama a palavra
não como arma mas como flor de girassol
que enfrenta e roda o sol. Não com medo.
Mas com a força que a mente traduz no coração.
Gosto de gente que escreve a rir
mas que sílaba a sílaba goteja versos,
lentamente, de alma que não sabe mentir.
Gosto de gente sem preconceitos.
Que diz do que gosta mesmo que seja
o melhor dos outros e o pior de si.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
REGRESSO
Regresso como se uma estranha dança
movesse o mais hesitante dos meus passos.
Regresso à simplicidade dos gestos,
à contemplação da vida junto dos abismos
Regresso à simplicidade dos gestos,
à contemplação da vida junto dos abismos
onde se precipitaram os dias que, para nós,
sempre estiveram destinados.
Regresso, para resgatar os sonhos
que ainda respiram luz à tangente da noite.
Regresso, ao corpo faminto de sol,
ao lume das giestas,
para que este não morra na terra fria,
sempre estiveram destinados.
Regresso, para resgatar os sonhos
que ainda respiram luz à tangente da noite.
Regresso, ao corpo faminto de sol,
ao lume das giestas,
para que este não morra na terra fria,
nem viva na gélida sombra
que me arrasta consigo ao esvair-se no tempo.
de, Albino Santos
Poema e imagem in Polyedro
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Natal
Natal
Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.
Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?
Miguel Torga in “Poesia Completa II”,a págs. 686
A TODOS DESEJO UM
A TODOS DESEJO UM
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
a canção das ondas
sábado, 6 de setembro de 2014
Setembro
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